quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

FALAR COMO SE ESCREVE

"Porque você fala como se estivesse a ler num livro aberto à sua frente."

In Noites Brancas

Houve um economista brasileiro, Roberto de Campos, que dava entrevistas como escrevendo um artigo, ou seja, falava como se escrevia um texto conciso e coerente. Como seu assunto era técnico, economia, ele encantava a alma dos técnicos sem confundir a alma sensível dos artistas com seu encanto. Para uma cultura letrada, um fenômeno banal. Para um cultura letrada com poucos leitores, como a brasileira, um fenômeno e tanto! Falar como se escreve. E aqui tomo para mim a reflexão.

Caso eu queira, seja necessário, seja relevante, eu tenho formação interna e capacidade linguística de falar proximamente à escrita. A única diferença seria que "palavra falada o vento leva", e não teria a chance de corrigir os erros dos meus limites naturais. Para o ouvinte, porém, estes erros seriam recompensados com a entonação da voz, com os gestos das mãos, com alguns trejeitos corporais.

Dos encantos como consequência de se falar como se escreve são os encantos na alma do outro em uma conversa intimista, numa distância de poucos centímetros. Não me refiro ao papo pé de ouvido. Estes são os sussurros, e falar como se escreve sussurrando já é burrice. Para um sussurro um "minha linda" e semelhantes causam melhor efeito porque vai profundamente...

Coloco-me a refletir também. O encanto a poucos centímetros tira as imperfeições sedutoras e falsas do corpo, uma vez que nem olhos, nem orelha, nem nariz, nem o rosto como um todo trazem visivelmente a marca da enorme barriga, a calvície ardente ao sol, e algumas assimetrias. Falar de modo encantador a poucos centímetros é o mesmo benefício que traz a paz após a tormenta. A paz é a ausência das inquetações internas e a sensação de segurança absoluta.

Peguei o livro Noites Brancas para retomar a leitura nesta manhã. Li um trecho. Refleti e parei para escrever. No livro, a certa altura, a jovem Nástienhka fala para o "sonhador" narrador:

"Você conta isso lindamente, mas não lhe seria possível contá-lo de maneira menos bela?"

Ele responde:

"Desculpe-me. Não sei contá-las de outra maneira."

Está aí algo que não volta. Quem usa da palavra para falar suas impressões e reflexões sobre o mundo, é natural a clareza... Quando uma pessoa falar que eu sou pedante quando narro algo ou conto algo, em instantes, para não ser indelicado, deixo de lado meu natural dicurso interno de ser eu e me torno amenidades, trivialidades, cheio de coloquialismo e cotidiano. Não por respeito a ela. A maneira mais rapidamente de começar e terminar um papo é falar da chuva, do calor, do stress. Até nisto um escritor pensa...

Como disse, falar como se escreve é possível. Claro que ler é importante ou conviver com pessoas desta natureza. Está aí o convite. Ler. Leia muito. Vai ajudar demais. E aquilo que você chama de solidão, um escritor chamará de vida, ou seja, tem pleno controle de sua própria existência, para mim, cheia de encontos.

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