segunda-feira, 17 de setembro de 2018

O belo nela - poema

O belo nela enaltece

Vontade, cheia de amor, pede
Minha triste alma p'ra alcançar;
Que o belo nela enaltece
E juro, para mim mesmo, olhar

Seus olhos, os dela, que amo,
Sem esconder de mim p'ra ela,
Sem saber a solidão como
Vivo, sem remos, um barco a vela,

Solto, infindo mar, em bonança.
Ela me vive solitário.
Ela me revive em criança.
Ela devolve o meu contrário,

Que do sofrer feliz me torna,
Que do morrer viver me faz,
Que do sonhar real demora,
E por fim em mim vive a paz.

domingo, 16 de setembro de 2018

Peça

Assisti a uma peça ontem sobre uma época próxima que eu não vivi. Década de 60, 70. Por meio de um musical. Simples, sem grande produção, mas intensa. Havia 20 na plateia, que cabia 150. Rua Augusta agitada. O ator principal se chama Ciro Barcelos, que é famoso no meio, há muitos anos. Entre ele, quatro jovens atores. Eu gosto de teatro e ao mesmo tempo não gosto. Se eu fico sem, não vejo a hora de ir. Se vou, saio de lá com a sensação de que faltou muita coisa. Raramente saio safisfeito. Nesta produção, eu fiquei satisfeito. Eu assisti, na verdade, um belo depoimento, por meio da arte, da vida pessoal de uma época que paradoxalmente havia mais coragem do que a de meus filhos. Estes anos que hoje testemunhamos pertencem à geração que vem. Vejo desta forma porque temos que pensar em nós também, nossa vida pessoal, nossos planos, que inclui realizar o que nos faz essencialmente feliz. O sonho é eterno em quem se ilude, tipicamente as verdades dos jovens. No palco, Ciro Barcelos, sobre quem nunca ouvi falar, e quatro atores, com idade para serem os netos dele. Ciro Barcelos vivei a tropicália, com canção dedicada a ele por Caetano, e conheceu todos os ícones daquela época, com uma intimidade de invejar. Na Europa, em exílio, com o grupo Dzi Croquettes, foi assistido pela nata artística da época em Paris. Ele passava de ano em ano, de quando fugiu de casa com Maria

domingo, 9 de setembro de 2018

Sermos Felizes 🤗😄😂😁

As pessoas querem ser felizes. Amigos e amigas, conhecidos e conhecidas, afetos e desafetos. Todos querem ser felizes. Antes de falar sobre o que penso em ser feliz, devo citar Aristóteles e o seu livro A Política, que faz o tratado a respeito do melhor governo possível, mas antes o filósofo grego chega à conclusão de que a fanalidade de nossas ações é a felicidade. A finalidade da pessoa, da família e por fim da sociedade é a felicidade.

Vejo amigos buscando sua felicidade em religião, na arte, nas distrações da mente, que são quase que ilimitadas. Uma conhecida, que não vejo há muito tempo, me agradeceu por uma reflexão que eu escrevi sobre o tema suicídio. Ela, que busca a sua própria felicidade, me abriu a curiosidade de skaltear o Instagram dela e ver o que de feliz se me aparecia. O que me chamou a atenção foi um par de fotos meditativas, com trajes indianos, com aquela marquinha no centro da testa, roupas exóticas e coloridas. Havia algo de felicidade. Assombrou-me a descoberta da felicidade dela.

Antes de especular o que é ser feliz e a plenitude que envolve a felicidade, conclui que somente é feliz quem busca a felicidade, quem busca eternamente a felicidade, quem vive a vida buscando a felicidade. Sei que não basta a paz para a felicidade. Ainda que pessoalmente eu creia que não existe a felicidade, creio no estado de felicidade. Ora, é a busca este estado, como um livro que se lê, um livro sem fim, sem a última página. A felicidade é esta busca.

Quem diz que encontrou a felicidade, devemos crer, porque a busca nos traz ocupação com nosso próprio destino neste mundo. Por esta razão, não penso no encontro da felicidade. Penso na contante busca da felicidade. Como a minha amiga, que me agradeceu pelas breves palavras que escrevi. O tema suicídio é tóxico e cruel, ainda que real e lamentavelmente próximo. Viver é a constante busca. Minha conhecida, meus amigos, eu, todos nós seremos felizes na busca da felicidade e não necessáriamente ao achá-la. Simplesmente porque parece impossível um estado constante de êxtase, sem que seja ironicamente desajuste emocional. Me encanta viver transidando com sentidos mais abertos para esta viagem. Esta amiga conhecida é jovem. Ela tem muito tempo. Todos tempo. Na ausência deste, o que somos? Dentro do tempo precisamos ser algo. Este o segredo. Buscar sempre.

Suicídio

Algumas circunstâncias e bate-papos me levam à releitura de algo que havia lido há um tempo. Desta vez foi do capítulo Suicídio (foto), do livro O Demônio do Meio-Dia, de Andrew Solomon, que faz um raio-x e uma análise profunda sobre a doença psicológica e neurológica chamada Depressão. No livro inteiro o tema depressão é abordado. Desde seu depoimento pessoal, portador da doença depressão, a tratamentos medicamentosos - ironicamente seu pai trabalhava em laboratório de medicamentos -, passando pela história da depressão e pela evolução da depressão, no sentido darwiniano, como a questão "Se a depressão é contra a vida, por que se manteve nos indivíduos, na evolução das espécies?" Bem, há um consenso de que a melancolia foi necessária para pacificar os indivíduos e manter o bando e a tribo unida, e a melancolia evoluiu para Depressão. O capítulo 7, Suicídio, porém, mereceria um livro à parte, porque destoa do tema central, ainda que o complemente. Para ele, baseado em alguns outros psiquiatras e psicólogos, o suicídio não deveria ser tratado como um sintoma da depressão. Deveria ser classificado como uma doença autônoma, que pode ou não conviver com a depressão, sem ser mero sintona desta. Ele dá o exemplo do alcoólatra depressivo, em que se pode equivocadamente achar que o alcoolismo vem em função da depressão. Hoje alcoolismo é uma dependência química, tratável, e separada da depressão. Solomon traz uma lista de dados muito desconfortantes sobre o suicídio, que podem ser lidos dando um zoom em uma das fotos. Para nós, a reflexão é de alerta. Alerta e monitoramento. O suicídio pode ser dividido em quatro grupos, segundo Solomon: a) os que se suicidam sem pensar; b) os que se suicidam como vingança; c) os que se suicidam por uma lógica falha e alucinante; d) o quarto grupo se suicida racionalmente e de modo assistido, para evitar o sofrimento prolongado de uma doença como o câncer (uma eutanásia). O autor dá o exemplo de sua própria mãe que se suicidou (eutanásia), sob olhar e acompanhamento do marido e filhos, deitada em sua cama, serenamente, ingerindo medicamentos específicos, um a um, que a levaram a um sono profundo e sem volta, depois de tentar - sem sucesso - a cura de um câncer. Quando ela iria entrar em fase terminal e paliativa, o plano do início foi efetivado. Ela morreu, como morreria, sem dor e sem sofrimento sob o literal acompanhando do marido e dos filhos. Ler este capítulo sobre suicídio nos ajuda a refletir sobre os três primeiros grupos dos suicidas. A maioria das pessoas que tiram a própria vida quer uma segunda chance. A maioria quer ser socorrida. O ser humano tem vivido muito tempo, ainda que o pessimista sempre terá a palavra final. Mas não vamos aliviar para o pessimista. Dá para viver com encantos, ou equilibrado. A sociedade dá muita liberdade volitiva à maioria, mas restringe a realização de sua vontade, ainda que a realização de muitas de nossas vontades sejam apegos frágeis e não duradouros, que levam a frustrações e problemas emocionais - na essência, frustração sem autoconsciência é isso. Está aí uma boa indicação de leitura. Reli com prazer e ao mesmo tempo um prazer perturbador. Mesmo assim, vale a pena.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Uma parte de mim

Uma parte de mim diz que se sente ridícula só em pensar em fazer-me voltar a amar como adolescente. A outra parte de mim silencia na maioria das vezes, intimidada pela vergonha de pensar assim, porque é um sacrilégio, uma iconoclastia, um assinte à vida remunciar ao Amor. Tenho minhas desculpas e o equilíbrio é lembrar-me que "eu já vivi". Arremato a experiência de outrora amar com "não preciso mais". Quero dizer que amar cansa com a idade, porque viver cansa o amor. Quem não se cansa de amar, esquece de viver, porque não vive para si. Claro que falo do amor romântico. Se amar na minha idade não fosse como é na juventude vigiar, dar satisfação, fingir indiferença, cobrir carência, tapar buracos que não abrimos; se amar na minha idade fosse essencialmente fidelidade com a reciprocidade, e nada mais, ou seja, troca essencialmente de essências, sem exigir, nem mudar, nem querer nada do outro a não ser a liberdade da pessoa querer estar ao seu lado o momento em que quiser! Falo de um ideal e de uma realidade. Amar a posse é a realidade. Amar dignamente a dor da perda do amoe romântico é o ideal. Falo cansado sobre um assunto que cada dia vou me esquecendo. Aliás, escrevo um romance sobre. Sobre iniciar a amar. Porque já soube como ele se me apresentou. Como um filósofo que espera, deleito-me em aprender porque me traz sentido neste mundo passageiro com quase nenhum sentido.

domingo, 2 de setembro de 2018

Ficar doidão

Ficar doidão é mal. Quem não está acostumado a ficar doidão, o pessoal vê você e fala "é bom de vez em quando". Mesmo assim, ficar doidão, no outro dia, caímo na real que será dos dias mais inúteis de sua vida. Não que você ficou enfermo, mas tem de recupera-se. Você ficou doidão, e mal-estar persiste, junto com as memórias do dia anterior (ou noite) intensificando os nossos autojulgamentos dos possíveis ridículos do tipo "sóbrio eu não faria aquilo". Nem falo de uma consequência "Se Beber Nâo Case". Aliás, neste filme me admira que o despertar deles parece bacana. Dá até vontade de ficar doidão e despertar naquela situação. Eu estava com um primo e ele teve de trazer o carro. Paramos duas vezes na estrada porque eu estava mal. O carro aos 50km/h me desintegrava. Não existia mais corpo e mente juntos a mais de 50km/h. O corpo andava mais lentamente e enquanto a mente dava um pulo na estrada. Minha mão tentando ser as palavras para o motorista andar a 20km/h. Meu primo acelerava. Então eu gemia alto e ele "está bem?". Eu dizia "não" com a cabeça, gemendo. "Quer parar?" Eu "sim" com a cabeça, gemendo. Depois de parar duas vezes, ele não parava mais. O carro ia. Ademais, ele fez o certo em ir nem dar atenção mais. Embora a poucos quilômetros, não chegava. Quando cheguei, doidão, abri a porta do carro. Minhas pernas me chamavam para o chão. Minha consciência suspendia minhas pernas para a vergonha não ficar muito mais alheia. Grato à parede no início. Consegui entrar. Pensava "toma água, toma água, toma água". Tomei uns três copos. Minha tia acordada, quase cinco da manhã. "Que foi, meu filho?". "Doidão, tia!" Ela sorriu e retornou a frase "de vez em quando faz bem". Daí em diante, a cama era um burado sem fundo. Eu culpava meu fígado por ser tão fraco e pedia perdão a ele fazê-lo trabalhar por escolha minha. Eu até ouvia meu fígado dizendo "relaxa!, de vez em quando é bom!". Claro que ironicamente. Quem sentia era a minha mente. Mas o pior de tudo foi não ir jogar futebol de campo hoje. E já que citei memórias linhas atrás, eu ensino que nós não temos memórias propriamente dita. Temos emoções, que criam as memórias. Parece absurdo, mas é este o processo. Tanto que qualquer trauma é uma forme emoção que escondeu a memória no inconsciente, e fica lá arquivada até ser descoberta e a pessoa voltar a ter uma vida mais saudável. Li muita coisa sobre. E dentro desta ideia, certa vez uma aluna me perguntou o que era a depressão. Ela estava no nono ano. Por incrível que pareça, a depressão é instalada na mente da pessoa quando simplesmente ela para de sentir emoção: ausência de amor, ausência de tristeza, ausência de sua capacidade de sentir qualquer emoções na vida. Emoção e sentimentos são duas coisas distintas, mas dependentes. Podemos ficar tristes num filme, que é um sentimento, que veio pela emoção gerada no filme. Está aí o problema da depressão profunda, crônica ou severa. Por não a pessoa nunca sente emoção, logo o sentimento de alegria, tristeza, ódio, euforia nunca é despertado. Algo errado nos envolve o cérebro, porque deixamos de construir novas memórias, e as antigas memórias (por exemplo: a felicidade de viajar para um lugar maravilhoso; nascimento de um filho; passamento de alguém) não nos despertam mais emoções como antes. Falo porque estudei muito sobre, mas também relato em meu segundo livro minha experiência pessoal dos 17 aos 22. Falando em livro, o estudo mais completo sobre depressão é em volume único de mais de mil páginas, chamado O Demônio do Meio-Dia, do psicólogo Andrew Solomon - que o Bial entrevistou semana passada. Bem, por isso que as pessoas falam "de vez em quando é bom ficar doidão", mas só de vez em quando. Estamos de alguma forma transmitindo a ideia de que sentimos emoção que desperta sentimentos e cria memórias. No meu caso, a sensação de constrangimento até de sair da cama e dar um "oi, mãe", "oi, tia", e dar um oi para meu primo. Não tem jeito. Ficar doidão jamais tira de nós a comunicação telepática "que situação, hein?". E insisto em nada a ver com Se Beber Não Case. É mais, se beber, toma muita água, como só fruta e evite o mundo no outro dia.

sábado, 1 de setembro de 2018

Selfies

Eu aprendi a não gostar de selfies. Eu dentro das minhas selfies. Uma que já passou meu momento de fazer bico, ou cara de indiferente, ou pose de feliz, ou qualquer outra forma que me coloca em uma selfie, e o outro motivo é que gosto de ser lido nas minhas reflexões. Eu até tenho bom argumento. Ver uma selfie dura uns 2 segundos. 200 likes em uma selfie, 400 segundos, o que dá uns 7 minutos de visualização e atenção por 200 pessoas. Ler um texto meu exige pelo menos um 5 minutos. Se tiver 5 likes, 25 minutos de atenção por cinco pessoas. Não me refiro à quantidade, nem ao tempo, nem à qualidade. Refiro-me a própria imagem que buscamos de nós mesmos neste mundo. Eu quero a minha imagem do modo como eu a construo naquilo que me faz bem, que tenta fazer bem ao outro. Já não sou mais inocente como Adão antes da maçã. A partir do momento da perda da pureza do olhar, dando lugar à malícia, ou manipulamos as pessoas para nosso interesse, ou marcamos o limite delas sobre nós. Quero ser útil a quem precisa do que eu chamo meus próprios talentos para quem precisa. Escrever e ensinar me resumem no que tenho para contribuir. A partir destes dois, amplio o horizonte de quem precisa de mim nestes meus dois talentos. Estes meus limites. Ou seja, fora do que está relacionado a ler e a aprender, escrever e ensinar, não me sinto bem porque não me sinto eu servindo ao próximo. Não desistirei das selfies quando achar divertido, e houver alguma mensagem implicitamente importante. Disse a uma conhecida de trabalho que ao envelhecer precisamos de lastros, ou algo que nos prenda à vontade pessoal de ser feliz. Beber e dançar, assim como viajar, apreciar todas as artes e festas etc. são escapes essenciais e importantes, mas não são lastros que nos prendem. Jogar futebol, treinar musculação, correr são meus escapes, mas não lastros para a minha vida neste meu momento em que ter razões para viver é crucial para sentir-me bem interiormente. Amar a vida é semelhante a qualquer amor ao longo de nossa existência, que nos enganará em algum momento. A vid definha, assim como qualquer amor que, de alguma forma, um dia partirá...