Algumas circunstâncias e bate-papos me levam à releitura de algo que havia lido há um tempo. Desta vez foi do capítulo Suicídio (foto), do livro O Demônio do Meio-Dia, de Andrew Solomon, que faz um raio-x e uma análise profunda sobre a doença psicológica e neurológica chamada Depressão. No livro inteiro o tema depressão é abordado. Desde seu depoimento pessoal, portador da doença depressão, a tratamentos medicamentosos - ironicamente seu pai trabalhava em laboratório de medicamentos -, passando pela história da depressão e pela evolução da depressão, no sentido darwiniano, como a questão "Se a depressão é contra a vida, por que se manteve nos indivíduos, na evolução das espécies?" Bem, há um consenso de que a melancolia foi necessária para pacificar os indivíduos e manter o bando e a tribo unida, e a melancolia evoluiu para Depressão. O capítulo 7, Suicídio, porém, mereceria um livro à parte, porque destoa do tema central, ainda que o complemente. Para ele, baseado em alguns outros psiquiatras e psicólogos, o suicídio não deveria ser tratado como um sintoma da depressão. Deveria ser classificado como uma doença autônoma, que pode ou não conviver com a depressão, sem ser mero sintona desta. Ele dá o exemplo do alcoólatra depressivo, em que se pode equivocadamente achar que o alcoolismo vem em função da depressão. Hoje alcoolismo é uma dependência química, tratável, e separada da depressão. Solomon traz uma lista de dados muito desconfortantes sobre o suicídio, que podem ser lidos dando um zoom em uma das fotos. Para nós, a reflexão é de alerta. Alerta e monitoramento. O suicídio pode ser dividido em quatro grupos, segundo Solomon: a) os que se suicidam sem pensar; b) os que se suicidam como vingança; c) os que se suicidam por uma lógica falha e alucinante; d) o quarto grupo se suicida racionalmente e de modo assistido, para evitar o sofrimento prolongado de uma doença como o câncer (uma eutanásia). O autor dá o exemplo de sua própria mãe que se suicidou (eutanásia), sob olhar e acompanhamento do marido e filhos, deitada em sua cama, serenamente, ingerindo medicamentos específicos, um a um, que a levaram a um sono profundo e sem volta, depois de tentar - sem sucesso - a cura de um câncer. Quando ela iria entrar em fase terminal e paliativa, o plano do início foi efetivado. Ela morreu, como morreria, sem dor e sem sofrimento sob o literal acompanhando do marido e dos filhos. Ler este capítulo sobre suicídio nos ajuda a refletir sobre os três primeiros grupos dos suicidas. A maioria das pessoas que tiram a própria vida quer uma segunda chance. A maioria quer ser socorrida. O ser humano tem vivido muito tempo, ainda que o pessimista sempre terá a palavra final. Mas não vamos aliviar para o pessimista. Dá para viver com encantos, ou equilibrado. A sociedade dá muita liberdade volitiva à maioria, mas restringe a realização de sua vontade, ainda que a realização de muitas de nossas vontades sejam apegos frágeis e não duradouros, que levam a frustrações e problemas emocionais - na essência, frustração sem autoconsciência é isso. Está aí uma boa indicação de leitura. Reli com prazer e ao mesmo tempo um prazer perturbador. Mesmo assim, vale a pena.
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