O que é consciência? Podemos dizer que há dois tipo de consciência. A primeira é a consciência experimentada, do tipo o corpo sentir diretamente na mente a experiência de uma vivência. Dá-se o nome de qualia (plural de quale). A segunda consciência é a mente saber tudo sobre a experiência, mas não sentir diretamente na mente. Sobre este último, um bom exemplo é um médico cardiologista, que nunca teve problemas no seu próprio coração e, portanto, não experienciou na própria mente a consciência de um infarto. Ela sabe intelectualmente tudo sobre o funcionamento do coração e os sintomas dos infartados, mesmo que não tenha passado por isso. Em outras palavras, ele tem consciência, sem quale, sem experiência. Já as qualia é o self experienciando diretamente na mente. Viagens é o exemplo mais interessante. Hoje se aprende muito sobre tantas partes e cultura do planeta virtualmente, sem viajar. Podemos aprender praticamente tudo a respeito do mundo. Eu mesmo descrevi Rio Branco, no meu livro Miguelito, sem ter jamais conversado com um riobranquence e ido lá. Pesquisei Google Maps para ver detalhes das ruas etc. Parece que eu conheço bem o lugar. Mas sem qualia. Viajar para sentir com o próprio olhar a Torre Eiffel, e todo vislumbramento de Paris, saborar na Grécia a culinária mediterrânia, um pit em pub in loco em Londres, a aurora boreal nos países nórdicos etc. Esta experiência direta é o self experienciando na mente. Mais do que adquirir conhecimento, ele criou redes neurais que envolvem emoções, sensações e memórias. Estou citando a Europa para um breve tour mental, mas o mundo pode ser a experiência. Eu, que nunca viajei para o exterior, posso usar todas as palavras para descrever o que é o exterior, mas nunca darei a minha verdade de ter sentido na mente meu olhar pessoal admirando as Pirâmides do Egito. Se o consolo basta, Machado de Assis nunca saiu da cidade carioca (com duas ou três exceções), e seus textos nos enganam muito. Então, consciência é, primeiro, ter a experiência direta do ardido da pimenta, e/ou, em segundo, conhecer tudo biológica e quimicamente do processo de ardência da pimenta sem jamais ter experienciado a pimenta. Há médicos que talvez nunca tomaram heroína e conhecem tudo a respeito desta droga e seus efeitos no corpo humano. Ele tem consciência de heroína, sem qualia. Escrevo pensando em nosso sistema educacional básico no Brasil, que é moldado em adquirir conhecimento, sem qualia. Eu me lembro de uma escola particular em que eu dei aula. Eu falava sobre mitologia grega, sobre a Grécia, e um aluno foi me falando que conheceu Parthenon etc. Ele tinha as qualia. Eu somente a palavra e a cara de paisagem. A grande exceção na educação básica é a Língua Portuguesa, porque alunos e alunas falam a língua portuguesa, que se estuda na sala de aula. A maior dificuldade em especial nesta matéria é fazê-los perceber que eles já possuem dentro de si a expiência do idioma. Não se ensina língua portuguesa para nativos em português. Aprimora-se a norma-padrão e pode-se experienciar a arte da literatura, que aí sim é um nível maior de ensino. Laborarório para Ciência, Biologia, Física, Química, Matemática é uma boa forma de os alunos terem consciência do que se aprende, de primeira ordem, ou seja, com qualia, diretamente na mente. Estudos in loco de Geografia e História também, ainda que História é o estudo essencialmente memorial, porque é a reconstrução do que somos culturalmente com o olhar no que éramos. Está aí uma boa reflexão para mim, em termos de deixar uma escola bem mais agradável, envolvente, feliz e interessante. Tentar mais experiências diretamente, que é o que o professor Lucas, por exemplo, busca fazer. Eu tenho admirado todos estes projetos porque sei que sou um professor conteudista. Mas tenho revisado esta minha verdade, e toda revisão é uma busca de adaptação para melhor. Neste sentido que aperta o coração a situação da condição da escola. Tantos modos de ensinar tão ricos, cheios de vontade e competência, porém com obstáculos estruturais, que inibem vontades. Como é obrigatório os alunos passarem pela escola, teríamos muito menos stress emocional se a prática fosse a regra e os conceitos sem qualia as exceções. Estou sendo bem específico entre os 6° e 9° anos, que é uma fase que dá para agregar demais. Alunos e alunas estão em formação. Todas as experiências são quase que aceitas. Alunos felizes e escola feliz, professores igualmente felizes. Ao menos em termos pedagógicos.
Prof. Flavio
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