Ficar doidão é mal. Quem não está acostumado a ficar doidão, o pessoal vê você e fala "é bom de vez em quando". Mesmo assim, ficar doidão, no outro dia, caímo na real que será dos dias mais inúteis de sua vida. Não que você ficou enfermo, mas tem de recupera-se. Você ficou doidão, e mal-estar persiste, junto com as memórias do dia anterior (ou noite) intensificando os nossos autojulgamentos dos possíveis ridículos do tipo "sóbrio eu não faria aquilo". Nem falo de uma consequência "Se Beber Nâo Case". Aliás, neste filme me admira que o despertar deles parece bacana. Dá até vontade de ficar doidão e despertar naquela situação. Eu estava com um primo e ele teve de trazer o carro. Paramos duas vezes na estrada porque eu estava mal. O carro aos 50km/h me desintegrava. Não existia mais corpo e mente juntos a mais de 50km/h. O corpo andava mais lentamente e enquanto a mente dava um pulo na estrada. Minha mão tentando ser as palavras para o motorista andar a 20km/h. Meu primo acelerava. Então eu gemia alto e ele "está bem?". Eu dizia "não" com a cabeça, gemendo. "Quer parar?" Eu "sim" com a cabeça, gemendo. Depois de parar duas vezes, ele não parava mais. O carro ia. Ademais, ele fez o certo em ir nem dar atenção mais. Embora a poucos quilômetros, não chegava. Quando cheguei, doidão, abri a porta do carro. Minhas pernas me chamavam para o chão. Minha consciência suspendia minhas pernas para a vergonha não ficar muito mais alheia. Grato à parede no início. Consegui entrar. Pensava "toma água, toma água, toma água". Tomei uns três copos. Minha tia acordada, quase cinco da manhã. "Que foi, meu filho?". "Doidão, tia!" Ela sorriu e retornou a frase "de vez em quando faz bem". Daí em diante, a cama era um burado sem fundo. Eu culpava meu fígado por ser tão fraco e pedia perdão a ele fazê-lo trabalhar por escolha minha. Eu até ouvia meu fígado dizendo "relaxa!, de vez em quando é bom!". Claro que ironicamente. Quem sentia era a minha mente. Mas o pior de tudo foi não ir jogar futebol de campo hoje. E já que citei memórias linhas atrás, eu ensino que nós não temos memórias propriamente dita. Temos emoções, que criam as memórias. Parece absurdo, mas é este o processo. Tanto que qualquer trauma é uma forme emoção que escondeu a memória no inconsciente, e fica lá arquivada até ser descoberta e a pessoa voltar a ter uma vida mais saudável. Li muita coisa sobre. E dentro desta ideia, certa vez uma aluna me perguntou o que era a depressão. Ela estava no nono ano. Por incrível que pareça, a depressão é instalada na mente da pessoa quando simplesmente ela para de sentir emoção: ausência de amor, ausência de tristeza, ausência de sua capacidade de sentir qualquer emoções na vida. Emoção e sentimentos são duas coisas distintas, mas dependentes. Podemos ficar tristes num filme, que é um sentimento, que veio pela emoção gerada no filme. Está aí o problema da depressão profunda, crônica ou severa. Por não a pessoa nunca sente emoção, logo o sentimento de alegria, tristeza, ódio, euforia nunca é despertado. Algo errado nos envolve o cérebro, porque deixamos de construir novas memórias, e as antigas memórias (por exemplo: a felicidade de viajar para um lugar maravilhoso; nascimento de um filho; passamento de alguém) não nos despertam mais emoções como antes. Falo porque estudei muito sobre, mas também relato em meu segundo livro minha experiência pessoal dos 17 aos 22. Falando em livro, o estudo mais completo sobre depressão é em volume único de mais de mil páginas, chamado O Demônio do Meio-Dia, do psicólogo Andrew Solomon - que o Bial entrevistou semana passada. Bem, por isso que as pessoas falam "de vez em quando é bom ficar doidão", mas só de vez em quando. Estamos de alguma forma transmitindo a ideia de que sentimos emoção que desperta sentimentos e cria memórias. No meu caso, a sensação de constrangimento até de sair da cama e dar um "oi, mãe", "oi, tia", e dar um oi para meu primo. Não tem jeito. Ficar doidão jamais tira de nós a comunicação telepática "que situação, hein?". E insisto em nada a ver com Se Beber Não Case. É mais, se beber, toma muita água, como só fruta e evite o mundo no outro dia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário