- Já saiu com ele?
- Hã?
- Você saiu com o rapaz com quem está conversando?
- O que é sair pra você?
- O coração estar no momento.
- Beijei ele.
- Já saiu com ele?
- Hã?
- Você saiu com o rapaz com quem está conversando?
- O que é sair pra você?
- O coração estar no momento.
- Beijei ele.
Vinha para casa à noite dirigindo e refletindo sobre a quantidade de bobagem, em forma de conselhos, que eu tive de ouvir e aturar nas últimas semanas. Vinha pensando a razão descabida para esta liberdade que algumas pessoas tiveram e, claro, os erros que cometi para que elas ultrapassassem estes limites.
Algo ficou evidente para mim: eu estava em enorme poluição sentimental. Eu permiti uma confusa poluição sentimental em mim e, ao invés de posicionar-me de forma bem clara, eu ia e vinha posicionando-me de forma tímida e às vezes retrocedendo como indeciso. Ou seja, um total banana, que aparentava alguém sem iniciativa e confuso. Realmente devo ter deixado esta sensação. Para mim, eu era direto e franco, deixando claro meus problemas pessoais a todo momento.
Se está poluído, portanto, urgentemente despolua sua mente, despoluindo as suas relações que lhe causam mal. No caso dos sentimentos, desfaça radicalmente contatos que quiseram perturbar a ordem dos seus valores e emoções. Sobretudo aqueles para quem seu passado pessoal foi um livro aberto e usaram e abusaram contra você cada vírgula que falou. Talvez ainda não tenha chegado ao seu limite e, como eu, você tende a ir e vir, insistindo e até tolerando. Quanto mais rapidamente cortar, terá oportunidade de despoluir sua mente e sua alma, entretanto.
Para uma verdadeira despoluição emocional e sentimental, vai ter que fazer destas pessoas um passado enterrado, porque foram maléficas a você e às suas experiências. Você permitiu as pessoas se sentirem tão íntimas com seus problemas e acima deles que, por rancor ou mágoa, destilaram venenos quando elas perceberam que no fundo você fazia o que queria e não havia em momento algum dependência e fragilidade emocional dos seus mais importantes valores.
Comece mesmo apagando estas pessoas. Apague as bobagens que elas disseram. Depois, os relacionamentos ruins, corte-os na raiz. Eles somente fizeram mal e fazem mal a você. Um período de transição será fundamental e deslocado do seu eixo. Vida do zero, deslocamento e adaptação nos novos relacionamentos de amizade, amorosos e profissionais. Seu presente e futuro são mais importantes do que seu passado aos novos relacionamentos, que diz respeito a você, mesmo porque todos tem passado. Nosso presente deve ser muito mais legal que nosso passado. Já o futuro uma consequência. Foque no seu presente e futuro. Seus novos relacionamentos terão interesse no que de bacana você faz: esportes, cultura, atividades das mais diversas e que agregam. Assim como você pelo deles.
Não adianta. Quem o conheceu de um modo e passou a criticar sua atitude e a sentir-se com autoridade de falar o que você deve fazer, jamais mudará. A única forma de mudar, será sabendo ou testemunhando sua nova vida, que foi possível porque tivemos a consciência da poluição emocional que vivíamos. Mesmo assim, ela julgará que foram os conselhos dela que o ajudaram a mudar. Sim, foram os conselhos, mas não por sabedoria; foram porque simplesmente a pessoa ultrapassou os limites e venceu-o pelo cansaço.
Fico imaginando qualquer nova pessoa que você conheça. Numa festa, academia, viagem, em um curso. Despolua seu passado. Você será, num primeiro momento, parte daquele momento e este momento já basta para ambos. Focar nele. A partir daí, é viver o mais saudavelmente possível e ficar feliz se for uma pessoa bacana, ou afastar-se o mais rapidamente possível se for mais uma das mesmas. Geralmente vamos atraindo aquelas que tem o mesmo perfil da poluição emocional e sentimental que antes. Algo inconsciente. Fuja.
As pessoas que amam você, principalmente as mulheres que se apegam a homens, dizem para si mesmas que você foi o pior que aconteceu na vida delas quando você resolve se afastar. Simplesmente elas vão querer acreditar que o homem precisa de tratamento, já que vive indeciso e uma das indecisões era ficar ou não com ela. Não partirá delas que esta indecisão é mais por causa do medo delas do que pela objetividade dele. Homens maduros tomam decisões rapidamente. Daí vem a poluição. Se elas estão poluídas, nada tem de se fazer. Fuja.
Serão os pequenos valores em comum que enriquecerão os relacionamentos. No início tudo é legal e bacana. Se a pessoa é uma escritora e leitora voraz e comunicativa, sem perder a ternura e a feminilidade, possivelmente terá muita empatia comigo; se a pessoa é do tipo que julga o mundo, já começa a poluir meus sentimentos. O certo é cortar e transformar em momentos superficiais o encontro do café. Não significa que temos de ser mal-educados. Correto mesmo seria ser mais frio. Do contrário, sua indiferença futura será lida como "ser bipolar".
Sabe, pé na bunda destas poluições. No afastamento sempre sobrarão rancores e mágoas. Sempre. Vida realmente nova. Há pessoas bacanas sempre. Atraia-as para você. Deixe que as demais vivam em suas respectivas poluições. Viver relacionamento saudáveis pode ser uma escolha. Uma boa escolha. Nem todos estão de fato preparados.
Mulheres, muitas delas, precisam de defesas emocionais para não explodirem. Se eu as compreendo? Mais do que compreensão. Certa vez, insinuaram ao Machado de Assis uma certa ingenuidade a respeito das mulheres. Ele, dedo em riste, para o alto, sacramentou:
- Tudo neste mundo. Menos ingênuo. Jamais ingênuo.
Roubo-lhe as palavras. "Jamais ingênuo!" Mesmo assim, em menos de duas semanas, meia dúzia de mulheres me aconselharam a ir à terapia para tratamento em função de minha 'volubilidade' (nenhuma delas usou este termo). Em comum: todas gostam ou gostaram de mim; em comum, não tenho muita paciência para algumas coisas e nem quero ter para o que me incomoda. Quando tentei ter, fui tido idiota (abnegação) ou bipolar (escolha).
Dentre elas, e sobretudo delas, a quem não posso me referir, foi a mais radical. Elas que se iludem comigo. Sou útil, sou diferente; me posiciono, sou igual. Querem de mim o que não posso dar, ou mesmo a quem resolvo dar algo, a mão é de via única.
Engraçado aconselhar com convicção alguém para tratamento psicológico. Todas elas me mandaram! Tivessem 10% das preocupações que tenho, fora meus escritos e trabalho, muitas delas somatizariam em poucos meses. A preguiça e aborrecimento nem me permitem detalhar.
Aí vem os julgamentos pelo que eu escrevo. Parte de mim é a presença do olhar. Parte de mim é a interpretação da palavra. Se sou algo presente e ao vivo, a palavra escrita me dá a pausa necessária para escolher as vírgulas, a sonoridade e os efeitos na imaginação de quem lê. Olha. Sou danado.
A todas vocês, e tenho enorme vontade de dar nome, convenhamos, tratamento psicológico precisa quem não sabe bem o que quer, ou quer entrar na minha alma, fazer morada, com a sua mobília. Eu tanto sei o que quero que de imediato deixo claro que compartilho meu quintal.
Uma é enrolada e tem medo, apesar da idade; a outra se apaixonou perdidamente sabendo que somos pais de muitos filhos, ela com os dela e eu com os meus; a outra com quem vivi tantos anos, sofre de 'ódio patológico' e perdeu o pai, ou seja, a mim mesmo; a outra não entende que eu não queria viver a mesma vida dos meus últimos quinze anos, que seria meu destino se ficássemos; uma outra queria me convencer que eu estava apaixonado por ela e chorava deseperada; e tantas outras que querem ser minhas salvadoras emocionais da solidão delas. Por Deus! O que quero são leitores e espaço literário e minhas palestras para pessoas que precisam. Dentre elas, todas elas.
Tenho alguns conhecidos psicólogos que me admiram. São mais silenciosos comigo porque visualizo mais intimamente a alma deles. Teve uma conhecida que me disse algo bacana do tipo "sua vida externa é compatível com as emoções internas; se você não sentisse isto, então você teria um grande problema." Ela sabe o que falava.
Imaginem só. Se uma delas ler este texto, serão as mesmas coisas, os mesmos discursos, as mesmas palavras que me assustam. É prototípica a estrutura. Me assusta. De verdade.
Enfim, minhas lindas, fui poeta na fase bem difícil de minha vida: péssimo poeta; decorreram os anos, as histórias me roubaram a imaginação e escrevi contos; na fase adulta, primeira meia idade, vem as reflexões; e agora, daqui a pouco, meu primeiro romance de muitos outros. Aliás, dentre eles, tem um que será bem bacana cujo título já tenho "Destilando Rancor e Mágoa". Toda esta experiência, depois de separado, e esta maluquice, virará um belíssimo romance. Ao terminar de escrevê-lo e lê-lo, cada alma feminina se olhará no espelho e, reflexiva, perceberá que elas somente querem machucar para não gritar. Depois sofrem em silêncio até superar dentro de seu amor próprio e orgulho.
Sou tudo neste mundo, menos ingênuo. Ingênuo jamais. Há ainda mulheres que me olham como escritor e um bom escritor. Não deixam seus sentimentos por mim interferirem. Estas amam o que eu escrevo. Separam o homem do escritor. Ponto final.
Para todas: believe in yourself and never give up. I gave up.
O tempo dirá se foi melhor ou não. Sempre o mesmo tempo. Não me refiro ao meu passado. Nem a quem pertenceu ao meu passado. Meu passado é passado. Refiro-me ao meu presente que me envolve intensamente em tantas reflexões e pensamentos e no ato de amar e ser amado, querer e ser querido, desejar e ser desejado, doar e receber, paixonado e apaixonante. Este meu presente. Somente o tempo dirá se foi melhor ou não.
Via de regra eu tenho uma forte intuição de que o tempo responderá a favor de quem não toma uma decisão presente por orgulho ou vaidade. Ainda falaria o quanto eu amo você e o quanto é forte meus sentimentos por você. Ainda que tomado por forte paixão, sou homem de decisões com as quais preciso viver, do contrário eu me diluo no ar. Cederia por sacrifício, mas meu coração estaria distante. Quanto mal existe na falta de comunhão entre duas pessoas que se amam! Amam-se tanto que ficam em guerra porque valores e amores raramente caminham juntos. Se sofre tanto.
O tempo dirá se voltaremos em comunhão um dia, em união de amor, em harmonia de sentimentos, em que possamos ceder nossos corações e até nossas almas um para o outro sem nos perdermos. Tenho você em mente. Apenas em mente. Tenho você como vontade de ter. Apenas vontade. Tenho você como amor. Apenas como amor. Cada qual, no entanto, tem um ao outro livre, solto, independente. Imagine que quem nos controla são nossos sentimentos e emoções. Isto à parte, não somos controlados. Cedemos circunstancial e conscientemente.
O tempo dirá o distanciamento. Trago em mim boas verdades. Respiro com sinceridade os segundos da vida. Creio assustadoramente na entrega do amor. Somente o tempo mesmo é capaz de dizer. Como se vê, meus sentimentos, eu os uso ao meu favor como prática de imprimir palavras depois de ter sido sufocado por quinze anos em uma relação muito má para a minha vida pessoal. Exemplo eram meus dois mil livros que viraram 350. Outro exemplo é que terminei a graduação em 2000 e mantive-me nela. Outro exemplo foram os 99 quilos em 2014 e as doenças em decorrência. Outro exemplo é meu primeiro livro publicado em 2013 e meu segundo em 2014 e meu terceiro será em 2015. O tempo disse que foi um desastre e péssimo relacionamento, tirando meus amados filhos, que eu amo e os quero para mim.
Somente o tempo dirá se estaremos juntos, ou se será melhor este distanciamento. Se aprenderemos a ceder o que para o outro é realmente importante e dar ao tempo a chance de nos responder as coisas futuras. Dizer o que se quer do outro não significa controlar a vida. São escolhas e valores. Acho que eu seria bem mais feliz com você ao meu lado agora, mas seria mais triste comigo mesmo desconfigurando aquilo que são minhas essências. Assim, vamos. O tempo vai. A saudade fará parte. A saudade do que poderia ter tido com você. Isto me deixa feliz. Um paradoxo. Amar é no fundo complicado quando não se tem a pessoa amada.
Impropérios. Sei o uso desta palavra. Ela não tem muita ligação com impróprio. Mas estão ambas numa mesma relação de significados. Tanto é verdade que 'dizer coisas impróprias' e 'dizer impropérios' tem "quase" o mesmo sentido, ainda que bem diferentes. Para mim e para o dicionário, a segunda é mais forte. Olha só a definição de 'impropério':
1. ação, postura ou discurso ofensivo e afrontoso destinado a ofender alguém;
2. Ação censurável, ato detestável ou repreensão injuriosa; ofensa ou afronta;
Logo se vê. Dizer impropérios é bem mais do que dizer coisas impróprias, como por exemplo, dentro do elevador "fui peidar agora, mas acho que caguei".
Nesta mesma linha de palavras, o salto para quem estuda, dizem, que sai de 15 mil vocábulos aprendidos até os 18 anos para 140 mil aos 40 anos para quem fez doutorado. Li estes dados nem me lembro onde. Mas há lógica.
Concluí que especializar-se é apenas aprender conceitos mais específicos através de palavras, porque ajuda a mente humana a traduzir a verdade de forma mais clara possível, deixando a visão da alma mais conscientemente aberta ao que o mundo pode ser.
Aliás, quando ouço impropérios contra mim, eu me oprimo internamente. Não me vitimizo, porém. E respondo à altura. A explicação vem do que o mundo realmente é para mim. Queremos saber o que o mundo realmente é, certo? O ato de dizer impropérios é encher a alma do outro com palavras agressivas que não são reais. A finalidade é apenas de machucar, ferir, destruir, humilhar, desmotivar, acabar o máximo possível com o outro para a vida e para o mundo. Acho injusto e retruco para o bem do outro. Paradoxal, né? Mas imagine que o silêncio machuca muito mais.
Raramente uso de impropérios. Já o fiz. Inclusive recentemente com alguém que me fez ultrapassar meus limites. Podem exigir do homem a calma que for. A verdade é que vivemos de limites. Ainda mais eu que reprimo as ofensas e os impropérios sobre mim, porque sei que ofender ajuda a acalmar as pessoas. Sim, os impropérios vem de quem geralmente nos ama e criou um 'ódio patológico'. Precisa nos acusar e xingar para ter paz. Me xingar eu deixo ad nauseum. O problema é arrancar a alma para que o outro sofra. Ninguém tem este direito. Querer deixar o outro na merda é apenas ódio patológico. Uma doença.
Quanta energia gasta sem volta. Quantos dias para solucionar algo que não tem mais solução porque acabou há muito tempo. Não adianta deixar o 'ódio patológico' dominar e fazer moradia. O que era para durar no máximo um ano, vai se alastrando para mais tempo até certo limite impossível de ultrapassar.
Quando termina algo compartilhado, aquele que mais perde é quem quer ter tudo, chantagia e deixa o outro pior, enchendo a alma dele de impropérios, vitimizando-se no olhar, no rosto, nas palavras para o mundo. A cena será algo triste no futuro. Quando aprendi a definição de 'ódio patológico' aprendi nossas escolhas erradas. Em ambos os lados. Mas do erro também aprendemos histórias. E mais entendimento. Eu demoro para aprender porque escolho insistir. Mas aprendo com segurança porque as palavras existem para traduzir. O bom termômetro de viver bem é respirar em paz. Tenho vontade enorme de estar ao lado de alguém que me complete com palavras. Ainda assim prefiro a solidão a um silêncio profundo compartilhado ou a uma tagarelice que nada traduz. Ao cabo, me distanciarei e lá virão mais impropérios.
Eu não desisto nunca, na verdade. Me sinto bem quando desistam de mim. Me deixam em paz. Posso pegar minha liberdade. O único problema são os impropérios. Eita palavra bacana de refletir. Como é bom refletir.
As chaves abrem portas. Algumas abrem gavetas. Outras janelas. Abrem cadeados, que existem para proteger espaços cujas portas não tem chaves. Chaves lembram bastante o personagem amigo do Quico e da Chiquinha. Os politizados vão lembrar-se do fanfarrão ex-Presidente da Venezuela, que faleceu de câncer - acusam 'orquestrado' pelos EUA - e que, dizem, teve um caso amoroso com a Naomi Campbel, a belíssima negra modelo internacional. Que gata!
O que dizer da chave de meu carro Pálio Weekend 97? Desde o mau contato na ignição todos os dias, a ele me acompanhar até a academia do condomínio de luxo onde moro temporariamente até fazer a natural partilha de meus bens após meu divórcio. Imaginem que a mulher me enrolou para deixar tudo para ela! "Em nome dos filhos!" Bem, vim morar em um condomínio de luxo a convite de minha irmã. Aceitei e admito que dá vontade de não sair mais daqui. Claro, se ao menos eu trocasse de carro, ficaria mesmo.
Entra aí a chave de meu carrinho velhinho que me leva e traz. Chego à academia pela manhã com meus 90kg mal distribuídos, concentrados na minha barriga. Hoje, porém, já corro 8km em um período de uma hora. Dizem que está bom. Malho bastante. Os músculos enrigecem aos olhos do espelho. Nas pernas e nos braços. Me sinto feliz. Minha felicidade diminue ao pendurar e depois retirar a chave de meu carro do lugar destinado a este propósito. Um penduricalho cheio de pequenas garras.
Imagine algo miudinho. Minha chave. Bem magrinha e sem nada que possa trazer uma luz de nada. Minha chave. Nem brilho tem. Minha chave. Aliás, manchas de ferrugem e arranhos em cada detalhe. Minha chave. A parte de plástico de cima encardida de marrom. Minha chave. Timidamente, eu apareço e penduro entre as demais a minha pequenina chave de meu carrinho 97. Inevitavelmente vejo tantas outras e me pergunto onde está o metal delas. Aquele metal que penetra com agressividade o miolo para dar a partida? Nada. Que coisa. Tempos que nos destinam aos detalhes de quem é quem e o que tem o que.
Minha irmã me disse que não se pode tirar o carro de um homem. Quando a mulher faz isto, ela tira o órgão genital dele. Exatamente. O seu pinto. Não importa tanto a ele o olhar feminino anatômico. Desde que entre o uso dele e seu descanso, a mulher sentiu-se mulher. E convenhamos: quem gosta de passear de transporte público são adolescentes e ciclistas, né? É ou não é? É. Esta história de nada a ver é que não tem nada a ver.
E minha irmã me vendeu sua Pálio Weekend 97, indignada ao me ver sem carro pelas razões que já disse. Quando peguei-o, parecia que me lambusava com doce. Voltei um pouco a sentir-me livre e confiante. Até o momento em que comecei a comparar chave com chave. Vejo sempre com um sorriso. Acho cômico. Vou, evidentemente, dar um passo maior depois e ter de mudar de chave, né?
Ah, e antes que chamem de paradoxal ter de ir de carro à academia dentro do condomínio a ir caminhando, digo que é um pouco longe. Não apenas malho. Ainda escrevo, trabalho e reviso meu terceiro livro. Porque esta é a vida que eu escolhi para viver. Quem geralmente decide quem merece fazer parte dela por muito tempo sou eu. Amo quem ri com inteligência. Amo quem prefere a liberdade de consciência plena. Amo quem lê. Amo quem escreve. Embora fazer tudo isto não signifique amor correspondido. Apenas amar mesmo.
Sensação. Sentir. Sentidos. Sensoriais. Sensível. Sentimentos. Enorme o conjunto de palavras que envolvem a relação do corpo com nossa cosciência, ou com a formação de nossa consciência. Chamamos esta formação nossas experiências.
Estética significa 'sentir pelos sentidos': visão, audição, paladar, olfato, tato. Incrivelmente, o sentido que nos diferencia das demais pessoas e nos torna mais íntimos delas é o tato, que é o toque, que é a maior e mais sacra relação entre as pessoas.Tirem de nós a nossa pele, anestesiem nossa pele e acabamos totalmente nosso corpo para o mundo.
Nossa batalha neste mundo é saber quem podemos tocar e quem permitimos que nos toque ou que nós toquemos. Agarrar agride. Prender destrói. Segurar com força mata-nos aos poucos quando sem consentimento.
As escadarias da igreja da Praça da Sé não poderiam ser melhor palco para a cena dos dramas que viram tragédias em São Paulo. A visão é privilegiada para quem está embaixo assistindo. O som prejudicado porque o drama real da vida não tem sonoplastia, não tem amplificadores nem microfones. Os sons reais da vida dizem respeito somente a quem fala e ouve. A cena ao longe. A disputa entre os corpos. Um exigindo obediência e permacência. O outro em luta contra aquele toque que não mais lhe pertencia. Toda a tragédia clássica naquela cena implicada nas contrariedades das paixões, dos amores, dos desejos humanos.
Antes dos minutos finais de um longo drama oculto, o defecho relativamente silencioso para os expectadores, e seus milhares de expectadores assistindo aos curtos vídeos gravados. Os registros das cenas não se perderam. Ampliar a visão. Gravar os momentos. Extender as memórias visuais.
E foi pela memória apenas visual que um homem entra em cena. Um homem sem algum sentido real ao drama. Fosse o pai da vítima? Um irmão? Um tio? Um amigo que a ama, de um amor não correspondido, porém etéreo, puro, sacrificial? O desfecho se inicia.O terceiro corpo em disputa. Um empurrão. Um vacilo. Um ou dois disparos. Um corpo foge escadaria abaixo. Dois permanecem em luta. Mais outros vários corpos uniformizados fazem o que devem. Desferem contra um dos corpos algo que possa fazê-lo parar de desejar, de querer, de lutar por algo que não o quer. O outro corpo, silenciosamente entregue à sensação das primeira balas de revolver em suas entranhas, permanece em pé. Agora expectador. Assistindo. Testemunhando a outro corpo no chão, alvejado por diversas balas e cada qual querendo silenciá-lo. Foi a curiosidade de um em pé do outro começando sua agonia e seu silêncio total. A cena começa o fim. Em pé, ainda firme, o corpo alvejado. Como se bala alguma tivesse desregulado a essência do funcionamento do seu corpo. Ele dá alguns passos para a porta da igreja. Como indo de castigo por ser indisciplinado. Como um não convidado à festa. Como um ator meramente coadjuvante. Sai de cena. Volta ao seu anonimato à porta da igreja. Políciais invadem o palco. E o corpo em pé lentamente, como fosse descansar, vai ao chão. Ninguém o vê. Era o corpo unindo-se ao silêncio absoluto de nossos sentidos. Morre herói. Outro vilão, para a fúria de todos. A refém, liberta. O drama será notícias. As notícias discussões e reflexões. Do que sobra são histórias e a certeza de que a Arte nunca se comparará à vida, certamente entre os moradores de ruas e familiares dos atores, interessantes fofocas por alguns dias.