domingo, 6 de setembro de 2015

Drama dos Corpos na Escadaria da Catedral da Sé

Sensação. Sentir. Sentidos. Sensoriais. Sensível. Sentimentos.  Enorme o conjunto de palavras que envolvem a relação do corpo com nossa cosciência, ou com a formação de nossa consciência. Chamamos esta formação nossas experiências.

Estética significa 'sentir pelos sentidos': visão, audição, paladar, olfato, tato. Incrivelmente, o sentido que nos diferencia das demais pessoas e nos torna mais íntimos delas é o tato, que é o toque, que é a maior e mais sacra relação entre as pessoas.Tirem de nós a nossa pele, anestesiem nossa pele e acabamos totalmente nosso corpo para o mundo.

Nossa batalha neste mundo é saber quem podemos tocar e quem permitimos que nos toque ou que nós toquemos. Agarrar agride. Prender destrói. Segurar com força mata-nos aos poucos quando sem consentimento.

As escadarias da igreja da Praça da Sé não poderiam ser melhor palco para a cena dos dramas que viram tragédias em São Paulo. A visão é privilegiada para quem está embaixo assistindo. O som prejudicado porque o drama real da vida não tem sonoplastia, não tem amplificadores nem microfones. Os sons reais da vida dizem respeito somente a quem fala e ouve. A cena ao longe. A disputa entre os corpos. Um exigindo obediência e permacência. O outro em luta contra aquele toque que não mais lhe pertencia. Toda a tragédia clássica naquela cena implicada nas contrariedades das paixões, dos amores, dos desejos humanos.

Antes dos minutos finais de um longo drama oculto, o defecho relativamente silencioso para os expectadores, e seus milhares de expectadores assistindo aos curtos vídeos gravados. Os registros das cenas não se perderam. Ampliar a visão. Gravar os momentos. Extender as memórias visuais.

E foi pela memória apenas visual que um homem entra em cena. Um homem sem algum sentido real ao drama. Fosse o pai da vítima? Um irmão? Um tio? Um amigo que a ama, de um amor não correspondido, porém etéreo, puro, sacrificial? O desfecho se inicia.O terceiro corpo em disputa. Um empurrão. Um vacilo. Um ou dois disparos. Um corpo foge escadaria abaixo. Dois permanecem em luta. Mais outros vários corpos uniformizados fazem o que devem. Desferem contra um dos corpos algo que possa fazê-lo parar de desejar, de querer, de lutar por algo que não o quer. O outro corpo, silenciosamente entregue à sensação das primeira balas de revolver em suas entranhas, permanece em pé. Agora expectador. Assistindo. Testemunhando a outro corpo no chão, alvejado por diversas balas e cada qual querendo silenciá-lo. Foi a curiosidade de um em pé do outro começando sua agonia e seu silêncio total. A cena começa o fim. Em pé, ainda firme, o corpo alvejado. Como se bala alguma tivesse desregulado a essência do funcionamento do seu corpo. Ele dá alguns passos para a porta da igreja. Como indo de castigo por ser indisciplinado. Como um não convidado à festa. Como um ator meramente coadjuvante. Sai de cena. Volta ao seu anonimato à porta da igreja. Políciais invadem o palco. E o corpo em pé lentamente, como fosse descansar, vai ao chão. Ninguém o vê. Era o corpo unindo-se ao silêncio absoluto de nossos sentidos. Morre herói. Outro vilão, para a fúria de todos. A refém, liberta. O drama será notícias. As notícias discussões e reflexões. Do que sobra são histórias e a certeza de que a Arte nunca se comparará à vida, certamente entre os moradores de ruas e familiares dos atores, interessantes fofocas por alguns dias.

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