domingo, 13 de setembro de 2015

O Coração (conto)

O Coração

- O coração, definia Dr. Marco Pensila, é um músculo cuja única função - para o organismo - é bombear o sangue, fazer o sangue circular pelo corpo, mantendo-o alimentado e oxigenado. Não basta comer e beber, não basta respirar. Nosso coração é a força motriz de nosso elã vital. O músculo mais importante. O centro de nosso aparelho circulatório.

Assim explicava - meio técnico e meio didático - ao pai de Filipe, que sofria uma cardiopatia séria. 10% de chances. Sobreviver e viver, esperando um milagre.

- Meu filho, doutor, pode morrer?

Olhando para a mesa, preenchendo formulários, lendo pedidos de exame e checando um whatsapp que acabara de receber, o cardiologista tinha em mente a pescaria marcada para o sábado pela manhã. Há uma semana adquiriu uma bela lancha Brazilian Boat 235 CR CABIN. Teve o privilégio do primeiro passeio nela. Depois deixou na marina. Próximo à Praia da Baleia. Amava ir para lá. Amava pescar.

- Olha, seu Ricardo, disse ao pai, temos de ser realistas. A dor agora é muito grande. Mas não podemos encobrir nada. Tudo será complicado. E nós apenas seremos usados para consertar o coração do seu filho. Quem cura mesmo é Deus. Sou apenas um instrumento.

- Ele vai morrer, doutor?

O médico refletiu que todos vamos morrer. Por que o desespero?

- Vamos fazer de tudo para que isto não ocorra. Mas é uma situação muito grave. Dependemos de um milagre mesmo. De um milagre.

- E que horas vai começar a cirurgia?

- Remarcamos para daqui três horas. O coração ainda não chegou.

- Meu filho está lúcido ou sedado?

- Lúcido, porém, com poucas forças. Esta com um reforço de oxigênio. Não tem forças nem para falar.

- Posso ver ele, doutor?

- Melhor não.

O celular tocou. Pediu licença. Explicou que teria uma cirurgia em algumas horas. Mas que à noite daria para ir. Amanhã? Tudo certo. Combinadíssimo. Eu, minha esposa, dois casais de amigos. Na minha casa, na Baleia. Tem sim. Tem sim um heliponto lá. No condomínio mesmo. Claro que pode! Não sei. Pode chegar o horário que quiser. Deixo avisado. Até mais. Abraços. Vai ser um excelente fim de semana.

- Por que não posso ver meu filho, doutor? - insistiu assim que Dr. Marco Pensila desligou. E se ela morrer?

- Olha, seu Ricardo, vamos fazer o melhor possível. Seu filho será o meu filho na sala de cirurgia. Será o meu filho que eu perdi na mesa de uma cirurgia no ano passado. Faremos de tudo. Agora, quanto a vê-lo, posso te levar, mas ele não pode passar nenhum tipo de nervoso para não acelerar o músculo cardíaco.

O pai foi. Via pela janela do quarto o filho. Olhar quieto. Sem expressão. Preferiu não entrar. Oito anos. Apenas oito anos. Começou a chorar. Silenciosamente, escorrendo pela porta até cair de joelhos e permanecer lá, mãos juntas, pedindo a Deus um milagre, até ser retirado com delicadeza por uma enfermeira e levado à sala de espera, onde ficou todas as 8 horas de cirurgia, religiosamente agarrado ao terço.

O fato é que o doutor deve um fim de semana maravilhoso, com amigos e a família em sua casa na Praia da Baleia, curtindo muito sua lancha e folga. O amigo do helicóptero foi um dos mais empolgados. Houve camarão. Casquinha de siri. Vinho branco francês. Dançaram à noite. Todos. No domingo um churrasco digno. E futebol à tarde. Era a mais importante rodada do Brasileirão. Fluminense Campeão 2012. A vida corria. A vida em gotas de felicidade. Impulso de momentos. Voltou na segunda-feira à tarde para São Paulo. Antes, na mesma manhã de segunda, recebeu uma ligação do hospital em seu celular privado:

- Dr. Marco. Bom dia. Desculpe-me ligar para o senhor neste horário. É a Carol, chefe da enfernagem, do segundo turmo.

- Oi, Isabel. Tudo bem? - disse ainda sonolento. O que houve?

- Sabe aquela criança que o senhor operou na sexta-feira.

- Sim. Sei. O que aconteceu? Ele não resistiu?

- Sim. Quero dizer. Não. Ela está bem. Teve uma melhora considerável. Verdadeiro milagre. Pressão normal. Oxigenação normal. Enzimas todas normais. Parabéns.

Dr. Marco permaneceu daí em diante em silêncio. Não respondeu mais nada. Desligou o telefone. Desligou o aparelho. Desligou-se do mundo. Queria ficar incomunicável. Respirar. Profundamente. A terceira esposa ao lado, na cama, dormia, profundamente. Quase trinta anos mais jovem. Ela dormiu feito anjo. Abriu a gaveta do criado-mudo. Tirou uma caixinha. Tirou dentro dela um saquinho plástico. Tirou dentro dele uma foto pequena, 3X4, da carteira de escola. A foto do filho. A foto do filho que não conseguiu salvar, porque em viagem. Lacrimejou, sussurrando com dificuldade, soluçando silenciosamente, engolindo a vida solitária:

- Para você, meu filho. Este também é e sempre serão todos, sempre serão todos para você.

Dormiu.

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