Morreu sozinho respirando água. A água era salgada. O sal não salgou a terra e o corpo não resistiu à imensidão da água que tem vida e traz vida, porque por meio dela surgiu a vida.
Do ventre aquoso, embebido de calor e proteção, respirando muitas vezes o amor materno e comendo o que a vida proporciona à mãe, abriu a boca dentro do mar buscando ar porque o homem precisa respirar pela boca ou pelo nariz. Bebeu bem pouca água que não mais saía porque já não era troca. Era a mesma água de dentro e de fora. Agonizou a falta da troca. Não foi demorado para o corpo perceber. Não se sabe nem o tempo nem o que sentiu e nem as imagens que passaram em sua cabeça que seguia a vida dos adultos como verdade absoluta a uma viagem sem verdades algumas.
Quis o destino que a água salgada do mar não o consumisse como ela faz com os bilhões de quilos de vidas diariamente mandadas para o fundo do mar. Dizem que aquele líquilo escuro que se dá nome petróleo foram habitantes dentro do mar que terminaram seu ciclo entre o nascer e o morrer. O mar navegou aquele corpo até a areia, que, de costas para o sol não queimar seu rosto, esperou resgate.
Silenciosamente aos nossos ouvidos humanos o mar produz petróleo. Dizem que por milhões e milhões de anos. Não quis o mar sugar para as suas entranhas este pequeno de vermelho e azul para pertencer ao futuro deste processo natural do orgânico que movimenta muito de nossos deslocamentos mecânicos criados pelos homens. Avião. Navio. Carro. Ônibus.
O homem se desloca. A vida passa. A morte causa surpresa. Outros sentem porque seus momentos são mais sensíveis. Chorei com a cena. Outros, de coração mais frios porque acostumados ou preocupados com seus próprios movimentos, nada tem a ver com o vermelho e azul de costas para o mundo. Dormindo. Quem dorme de barriga para cima são os gordos pançudos feito eu, cheio de banhas vicerais de tantas calorias do Mac Donalds, feijoadas, churrascos, coxinhas e arroz e feijão. Cada caloria transformada em gordura corresponde a uma vida sedentária assistindo à TV e vídeos e olhando as fotos do mundo e das pessoas. Vontade de falar:
- Acorda, menino. Você dorme na areia. Vamos para casa.
Ele, molhado, abre os olhos. Diz na sua língua materna qualquer coisa que uma criança sonolenta diria com vontade de continuar dormindo. O adulto intolerante sacode-o. Ele se levanta. Cara de poucos amigos. Da-lhe a mão. E vai para a casa, no chuveiro, no shampoo e sabonete. Na roupa seca. Depois ligar a TV ou assistir vídeos na Internet.
Nenhum comentário:
Postar um comentário