domingo, 6 de setembro de 2015

As Chaves que Abrem os Carros

As chaves abrem portas. Algumas abrem gavetas. Outras janelas. Abrem cadeados, que existem para proteger espaços cujas portas não tem chaves. Chaves lembram bastante o personagem amigo do Quico e da Chiquinha. Os politizados vão lembrar-se do fanfarrão ex-Presidente da Venezuela, que faleceu de câncer - acusam 'orquestrado' pelos EUA - e que, dizem, teve um caso amoroso com a Naomi Campbel, a belíssima negra modelo internacional. Que gata!

O que dizer da chave de meu carro Pálio Weekend 97? Desde o mau contato na ignição todos os dias, a ele me acompanhar até a academia do condomínio de luxo onde moro temporariamente até fazer a natural partilha de meus bens após meu divórcio. Imaginem que a mulher me enrolou para deixar tudo para ela! "Em nome dos filhos!" Bem, vim morar em um condomínio de luxo a convite de minha irmã. Aceitei e admito que dá vontade de não sair mais daqui. Claro, se ao menos eu trocasse de carro, ficaria mesmo.

Entra aí a chave de meu carrinho velhinho que me leva e traz. Chego à academia pela manhã com meus 90kg mal distribuídos, concentrados na minha barriga. Hoje, porém, já corro 8km em um período de uma hora. Dizem que está bom. Malho bastante. Os músculos enrigecem aos olhos do espelho. Nas pernas e nos braços. Me sinto feliz. Minha felicidade diminue ao pendurar e depois retirar a chave de meu carro do lugar destinado a este propósito. Um penduricalho cheio de pequenas garras.

Imagine algo miudinho. Minha chave. Bem magrinha e sem nada que possa trazer uma luz de nada. Minha chave. Nem brilho tem. Minha chave. Aliás, manchas de ferrugem e arranhos em cada detalhe. Minha chave. A parte de plástico de cima encardida de marrom. Minha chave. Timidamente, eu apareço e penduro entre as demais a minha pequenina chave de meu carrinho 97. Inevitavelmente vejo tantas outras e me pergunto onde está o metal delas. Aquele metal que penetra com agressividade o miolo para dar a partida? Nada. Que coisa. Tempos que nos destinam aos detalhes de quem é quem e o que tem o que.

Minha irmã me disse que não se pode tirar o carro de um homem. Quando a mulher faz isto, ela tira o órgão genital dele. Exatamente. O seu pinto. Não importa tanto a ele o olhar feminino anatômico. Desde que entre o uso dele e seu descanso, a mulher sentiu-se mulher. E convenhamos: quem gosta de passear de transporte público são adolescentes e ciclistas, né? É ou não é? É. Esta história de nada a ver é que não tem nada a ver.

E minha irmã me vendeu sua Pálio Weekend 97, indignada ao me ver sem carro pelas razões que já disse. Quando peguei-o, parecia que me lambusava com doce. Voltei um pouco a sentir-me livre e confiante. Até o momento em que comecei a comparar chave com chave. Vejo sempre com um sorriso. Acho cômico. Vou, evidentemente, dar um passo maior depois e ter de mudar de chave, né?

Ah, e antes que chamem de paradoxal ter de ir de carro à academia dentro do condomínio a ir caminhando, digo que é um pouco longe. Não apenas malho. Ainda escrevo, trabalho e reviso meu terceiro livro. Porque esta é a vida que eu escolhi para viver. Quem geralmente decide quem merece fazer parte dela por muito tempo sou eu. Amo quem ri com inteligência. Amo quem prefere a liberdade de consciência plena. Amo quem lê. Amo quem escreve. Embora fazer tudo isto não signifique amor correspondido. Apenas amar mesmo.

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