sábado, 7 de março de 2015

PAZ...

"Estou só." Com estas palavras, Machado de Assis começa um de seus mais belos contos e pouco conhecido.

Diz ele lá que de onde está, o silêncio é quebrado apenas pelas ondas do mar que beijam a areia hoje para amanhã ir a outros lugares, mas que em seu coração há muita agitação e pensamentos.

Digo eu agora: "Estou só." E o silêncio é quebrado pelo som de uma orquestra na TV Cultura. Meu coração, com esta solidão, cabe em si mesmo e sente o silêncio de apenas ser um detalhe.

O resto? Sem detalhes, senão o corpo em harmonia com a mente em paz. Diz Mano Brown, em "Diário de um Detento", que  "todo preso tenta conseguir a paz de forma violeta." Racionais MC. Desde 1991 eu os ouço. Em 1997 eu os compreendi. Em 2013, artisticamente, me realizei com meu livro publicado.

Entendo a paz hoje em dia e isto me leva muito à solidão. Eu entendo a paz porque sob violência já vivi. Como um rapaz comum da periferia de São Paulo, tive a maioria dos problemas que o álcool leva a uma família desestruturada. A paz era um bem que nem sabia a dimensão. Me lembro, por exemplo, aos 18 ou 19 anos, na casa de um amigo, para almoçar, sentamos à mesa. Havia garfo e faca. A empregada serviu-nos. Não era formalidade. Era hábito mesmo. Chamou-me muito a atenção aquilo. O pai sério e acolhedor. A mãe bonita vindo da academia. Algo bacana que hoje traduzo como "paz".

À mesa, almoçando com uns amigos, senti-me em paz. Foi sem dúvida meu primeiro real contato com uma vida familiar. Paz então foi, mais ou menos, olhar para a direita e para a esquerda, e ir e voltar, e permanecer ou partir em harmonia com boas memórias, sem desacordo, sem desencontro, sem disputa de suas vontades. Paz.

Hoje estou só. Sozinho. São Paulo. A Av. Francisco Morato é mais barulhenta do que imagina o sétimo andar. Antes fossem as ondas do mar. Parece também que ouço algumas gotas. Chuva. Garoa. E a orquestra na TV Cultura. Tudo isto também me lembra que estou só e em paz. Escolher não deixa também de ser uma renúncia em nome da paz. E estou só. Me conforta Machado de Assis. No mesmo conto diz ele:

- Uma vez solto, onde irás tu, meu pensamento?

Verdade: onde irás tu, meu pensamento? Em busca da paz. Na paz.

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