quinta-feira, 8 de novembro de 2018

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    - Estou com uma coceira nos dedos dos pés, Rogério. Horrível. Não para. E sempre tive.
    Rogério pediu para Débora tirar o sapato. Ela relutou.
    - Imagina. É feio de ver. Uma vergonha só.
    Ele insistiu. Colocou o pé direito descalço no chão. Ele pediu para ver mais de perto. Ela já não deu caso. Ele abaixou.
    - Já sei. Eu conheço uma pomada excelente. É cara, mas resolve.
    -  Cara quanto?
    - Não se preocupe. Eu vou comprar para você. Um presente.
    - Mas por que este presente?
    Ele se levantou. Pegou o paletó pendurado na cadeira. Era um escritório de advocacia. Ele era novo lá. Débora, um ano mais velha, quase senior, apesar dos 28 anos. Antes de sair pela porta, parou uns três segundos. Voltou os olhos para ela, que sorria pelo hilário dele.
    - Porque eu cuido de quem eu amo, disse visivelmente com os olhos marejados e a fala embargada.
    E saiu. Ela silenciou, séria e perdida. Parecia verdade. De fato. Quem ama cuida, em todos os momentos. Ela, a partir de então, permitiu ser cuidada, e, de sua parte, cuidou de Rogério.

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