quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Não nos cansamos; temos saudades

O retorno é sempre muito mais cansativo. Não por apenas já ter ido. Não me refiro apenas a ir e voltar de um lugar e cansar-se na volta. Digo o retorno de tudo. Passa-me à cabeça inúmeros exemplos. Retornar ao banco, um exemplo. Retornar ao médico, outro. Retornar ao mercado para pegar o queijo ralado do macarrão. O clico de retorno é infinito, indefinido, inexaurível, paradoxalmente, incansável.

Evidentemente que neste exato momento pego-me pensando no retorno da Chapada dos Veadeiros e suas cachoeiras e mato e trilhas; de Brasília e a Praça dos Três Poderes, de Juiz de Fora, terra natal de minha mãe e só.

Fui e volto.

A toda ida parece óbvia a descoberta do olhar que nunca se cansa. No meu caso, seja por causa das angustiantes plantações de soja de perder o horizonte, como eu as vi, seja por causa da noite escura da ida que nos relaxa, acalma, silencia e liberta a imaginação para dentro de si mesmo. Eu não dormia durante a noite; eu vivia a noite.

Tim Maia pede em uma de suas músicas motivos para ficar. Não bem retornar. Algo semelhante. Mas ele fala assim: "me dê motivos para não ir embora". Fora o lógico que sempre deveremos retornar caso não seja uma ida definitiva, o fato de hoje ser véspera de Ano Novo abalou meu coração por não estar presente aos meus três filhos. Coisa de pai. O retorno, por isto, está  cansativo, como estaria de qualquer jeito. No entanto, acho que é esta mistura de saudade com a volta que cria a ansiedade inconsciente da demora e do cansaço exagerado. É bom colocar esta possibilidade em palavras. Alivia o coração.

Quem é pai e mãe deve se conformar que eles, os filhos, não terão lá tanta saudade assim se fosse o oposto. Eles lá e os pais aqui. E mesmo se tivessem entre voltar ou ficar, eu berraria para um deles:

"Tá louco! Vá curtir! Ano Novo tem todo ano! Vá viajar porque quando retornar vai sentir-se muito cansado e ficará feliz."

Eu estou feliz. Fui com contentamento e volto com muito conteúdo. Deve ser isto então. A vida de ir de um jeito e voltar mais e maior do que quando saiu.

Pensando melhor agora, eu não estou cansado no retorno. Estou com saudades. Oxi! Será então a mesma coisa? Vou pensar sobre isto. Não nos cansamos das pessoas; temos saudades do que elas eram. Será? Nossa! Forte! Realmente muito forte isto. Vou refletir mais profundamente: não nos cansamos das pessoas; temos saudades do que elas eram...

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