Ontem li um texto bem interessante. E a ideia básica dele é o culto ao corpo e o reconhecimento do próprio corpo no mundo.
Impressionante o modo como podemos mudar nossa visão de algo tão comum, como o que sabemos sobre nosso corpo, quando lendo dez páginas de um livro. Vou começar por um lado um pouco cruel, mas uma realidade impactante.
O descuido com o próprio corpo, de modo geral, é o primeiro triste sintoma de não se sentir desejado ou desejada por ninguém neste mundo. Seja até na vida matrimonial. Comum. Óbvio. O desmazelo com o corpo. Este sintoma implica algo ainda mais sério que é a ausência do toque do outro em nosso corpo, o não sentir o outro em nós, descobrindo onde estamos, nossas curvas, grandes ou curtas, nosso ser no tempo e espaço. Sem esta sensação, não nos reconhecemos como um todo no mundo, o que é fundamental para não deixarmos se ser quem somos.
O lado bacana disto está justamente nesta consciência transformadora do que somos ao percerber que nosso corpo somente é percebido na sua totalidade com o toque erótico do outro. Erótico mesmo.
Este sintoma da falta de cuidado com nosso corpo nos orienta para olharmos para nós e buscarmos nosso mundo físico pessoal como reflexo do nosso mundo dentro de nossa cabeça, o emocional. Emocionalmente nos anulamos.
Fiquei me perguntando por que eu, particularmente, me deixei aumentar em largura e peso nos anos de meu casamento, chegando a quase 100 quilos. Com 1,65m de altura com 100 quilos. Obesidade 2. Praticamente dois "eus" em um único corpo.
Como gosto de deixar a resposta buscar suas verdades mais escondidas, eu liberei o pensamento buscando uma verdade que me desse alívio emocional real: trabalho? dinheiro? filhos? preocupação? correria? acomodação? E ia mergulhando mais ainda na minha mente. A verdade se revelou-me de repente: eu não tinha vontade alguma de ser desejado por quem quer que seja. Tinha medo por razões pessoais. Tinha esta fraqueza. E vi sentido forte nisto. Me espantei. Meu emocional concordou. Libertei-me.
Logo me veio à cabeça o caso simbólico do vocalista Jim Morrison da banda The Doors. Ele deixou-se engordar para quebrar o paradigma do sex-symbol, repudiando qualquer desejo sobre ele mesmo.
O desejo de não ser desejado por ninguém ou por alguma pessoa passa como uma negação de tudo o que representa a sua identidade corpórea, perdendo sua identidade de espaço e mais do que isto, do outro ou outras nos toques de nossa intimidade. Curiosamente, um abalo emocional inconsciente.
Claro que das dez páginas que li, esta reflexão agora representa uma pena parte.
Gosto por isto de pegar um pincel de quadro pequeno e fazer um risco, um rabisco na mente do leitor para ele ficar ao menos com esta pequenininha marca e poder ampliar no seu ritmo o desenho que foi iniciado.
Impressionante. Só descobrimos verdadeiramente a totalidade de nosso próprio corpo com o toque amoroso de uma outra pessoa em nós. Aprendemos quem somos e onde estamos. Para dar certa esta reflexão, devemos pensar que os carinhos que damos ou recebemos é essencial para nossa estrutura psíquica.
E, agora mais óbvio, o que representa a falta de um outro corpo para descobrir o nosso próprio e, por isto, entender aquela forte sensação de que não somos mais corpo em nós, deixando de estar efetivamento no mundo.
Tocar e ser tocado é fundamental. Tocar e ser tocado.
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