Capítulo 2
Saí do banco por volta das duas da tarde, sem dar muita satisfação. A desculpa foi sobre minha noiva que voltara da Europa há dois dias. Eu nem fui pegá-la no aeroporto. Maio de 2015. Não me vem o dia do mês, mas sexta-feira na semana. Marcela era ainda minha persistente noiva por mais onze distantes meses. Cancelamos o casamento no ano anterior já com a data marcada.
Iríamos nos casar no final de novembro de 2014. E a razão era questão astrológica, numerológica e cabalística da menina. Nunca fui muito simpático a esta maluquice dela. Me cansava ler horóscopo e todo mundarel esotérico que ela trazia diariamente. Como para ela era importante, deixei a Marcela escolher o ano, o mês, o dia e o horário e todo misticismo possível. Teria que ser às 18:35. Ela entrando na igreja com o pé direito. E mais do que isto. Teria de ser em cinquenta passos até tocar a minha mão direita. Um delírio de casamento e de toques. Detalhes e mais detalhes conversados e planejados e aceitos. Não sei se seria feliz com ela. O tempo mostra que não.
Cinco meses antes, a novidade de nossa indireta separação. Ela, jornalista, fluente nos idiomas italiano e inglês, tinha sido convidada para trabalhar em Londres como correspondente internacional. Um periódico de meio porte de Londres. O salário pequeno. O aluguel pago. O sonho de trabalhar no exterior como jornalista realizado. Ela não havia sido a primeira opção do tablóide. Nem sei se sabiam de nosso casamento, embora tenha sido indicação do irmão dela, o Rafael que morava há anos por lá, a quem visitamos uma única vez. Eu, na verdade, não gostava dele e ele não gostava da minha cor. E a família dela não gostava da parente branca envonvida com um mulato engravatado. Sabe estas coisas que achamos que o amor supera e que no fundo é tudo baboseira romântica? Apenas toleramos os preconceitos e as ignorâncias com um baita exercício de humanidade porque temos a capacidade de tolerar, mesmo que o ódio predomine no coração dos recalcados. Não deixa de ser uma boa coisa a tolerância em si. Ela ensina-nos a não agredir.
Marcela me disse por mensagem que ela foi apenas a terceira opção das escolhas fracassadas. Confirmou no dia seguinte para mim, mas aceitou na hora para o jornalzinho de Londres. Nos encontramos, claro, para falar sobre. Me disse que me amava. E como chorou. Eu inclusive argumentei dubiamente que somos livres. Na vida, ao final, seremos sempre sozinhos como recompensa de nascer. Buscar o que nos preenche internamente obriga a tomar posições, decisões e escolhas muitas vezes conflituosas e até desesperadoras. Na mesa do restaurante no Reserva Cultural na Av. Paulista:
- Como eu amo você, Carlos, e passou a sua suave mão no meu queixo sem barba.
Marcela não estava desesperada. Ao contrário. O conflito interno dela foi puro charme de empolgação e júbilo. Acho até que as lágrimas por cancelar nosso casamento em 2014 se misturaram com a oportunidade feliz de se mudar como jornalista para o Velho Continente. Eu mesmo senti um leve sorriso de contentamento quando me deu a notícia. Como disse, me mandou uma mensagem empolgada no domingo à noite. Queria pessoalmente me dar detalhes. E no outro dia nos vimos.
Segunda-feira, 09 de junho, nos encontramos no Reserva Cultural. Tive uma rotina tranquila no banco que eu gerencio, com bons resultados. Sempre digo. Bancos e beleza são minas de ouro no Brasil. Nós comemos algo. Assistimos a um filme. Andamos pela Paulista à toa, sem rumo, sem chegada.
A data me lembra bem porque na quarta-feira, dia 11 de junho, haveria uma Missa de dez anos da morte do Cotonete, falecido num dia frio e ensolarado, em 2004. Claro que vejo o moleque em muitos dos meus passos. Inclusive nesta sexta vou falar com o doutor Carlos Sampaio que me chamou de pretinho pela primeira vez. Até hoje se arrepende. Passou a me chamar de doutor Carlos. Não há como esquecer o aleijadinho folgado, destemido, fulminante e contagiante que me lembrava sempre que a vida era uma hora marcada. A dele fora às 15:50, no dia 11 de junho de 2004. Oficialmente, parada cardíaca e respiratória, nas mãos de dona Cláudia, que estava sozinha na duplex no Anália Franco.
Marcela nunca o conheceu. Já cansou de ouvir as histórias, que lhe narrei. Eu iria chamá-la para me acompanhar à Missa. Achei que poderia interpretar apelativo, já que ela toda eufórica pelo jornalismo no tablóide no exterior. Mantive meu silêncio sobre a Missa. Amo demais o Cotonete. É que não devemos macular nossas imagens e momentos mais sagrados de quem amamos com quem não está em harmonia e em cominhão com nossos sentimentos. Marcela partiria em duas semanas para Londres. Eu não a levei ao aeroporto de Cumbica. Quer saber, eu não tinha coragem de falar para ela, mas foi como um término prolongado.
Nesta sexta-feira, dia do meu rodízio, eu saí do banco mais cedo, não para matar saudades da Marcela. Queria colocar um elegante fim ao noivado distante já que não nos víamos há quase um ano.
Sobre a Missa para o Cotonete, do dia 11 de junho de 2014, dez anos após seu passamento, fomos eu, dona Cláudia, o doutor Carlos Sampaio, minha mãe e meu pai, seus dois irmãos por parte de pai. Uma singela missa na Capela de São Francisco, no Largo São Francisco, no centro de São Paulo. Eu a encomendei. Eu a sinti. Eu a relembrei. E relembrarei.
Já no dia 09 de junho de 2014, Marcela me disse temendo escapar a euforia explícita.
- Carlos, a proposta me veio ontem à noite. Eu falei no mesmo momento que sim. Uma oportunidade única na vida. Mas dependo do seu consentimento.
Ela silenciou. Imagino que casar é daquelas oportunidades quase únicas na vida, ainda mais com quem se ama e se é amada. Tudo aparentemente. Ela lembrou do nosso casamento. O único impedimento real no imaginário dela. Dos males os melhores é que convite algum tinha ainda sido entregue. Somente o aluguel proporcional do salão, a reserva proporcinal da igreja, alguns meses do buffet. Nem o vestido de noiva. Dava para tomar na boa este prejuízo por quem não ama mais você. O prejuízo seria muito pior depois.
- Marcela, pode confirmar o sim e vai.
Ela chorou. Voltou a mão ao meu queixo. Sorriu tão rapidamente que eu dimensionei o amor que a pessoa possui na verdade pelos seus projetos de vida. Sua carreira profissional. Ela andava na crista dos seus mais importantes sonhos. Ninguém resiste à ambição do próprio crescimento.
Depois ela me olhou e perguntou se eu a amava acima de tudo a ponto de deixá-la ir e adiar o casamento por um tempi, sem esquecê-la. Eu disse que sim, e menti. Neste momento diria qualquer coisa em que o sim e o não fossem necessários. As escolhas batem muito em nossa porta.
Às 16:00 horas no mesmo Reserva Cultural, em maio de 2015, nesta sexta-feira que saí mais cedo do banco, fui à Paulista e fiquei próximo à escadaria da Gazeta. Nos beijamos timidamente. Fui ao simpático restaurante. Sentamos. Ela me disse do trabalho que estava amando. E depois de um hora, ela terminou comigo. Desta vez sem lágrimas e bem direta. Eu concordei. Pressenti algo no ar e tive de matar a minha intuição:
- Marcela, somente uma curiosidade. Tinha que ser exatamente às 17:00 você terminar comigo e neste mesmo dia? Algo cabalístimo? Numerologia?
- Pode ser que sim. Provavelmente sim
Ela se levantou. Passou a mão na minha cabeça, para deixar ou tomar as minhas energias. Saiu com salto alto, calça preta justa e um camisa de lã rosa, um pouco larga, mas no estilo. Fazia um leve frio. Eu paguei a conta. Aproveitei para ver um filme francês. Terminou a seção umas oito horas. Peguei meu celular e liguei para meu neurologista. Eu vivia perturbado nos últimos meses.
- Doutor Carlos Sampaio. Boa noite. Ocupado? É o Carlos.
- Um pouco, doutor Carlos, mas pode falar. O que aconteceu?
- Tem horário para uma consulta hoje à noite?
- Que horas?
- Agora.
- Aparece então às dez horas. Estou montando um guarda-roupa que a dona Cláudia insistiu lindo. Me fez desfazer do velho e comprar este novo.
- Precisa de ajuda?
- Jamais. Sou neurocirurgião. Tenho que saber montar estes pré-moldados com a mesma facilidade que abro e fecho um crânio. Já estou terminando, aliás. Aparece.
- Dez horas em ponto.
- Até mais doutor.
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