sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Desejo a Todos

Uma vida não pode viver com tantos amores. E nem sem amor algum. Nos altos e baixos, os sofrimentos e as angústias se equilibrarão com os deleites e prazeres. Amar é deleite. Sofrer é angústia. Eu tenho uma máxima para mim que amar é sacrificar-se, porque o verdadeiro amor. Coisa minha, pessoal, e tenho razões. Creio na felicidade, no entanto, porque sou otimista, porque sou agradecido, porque já vivi e padeci tormentos horríveis. Abria os olhos pela manhã e me perguntava por que ainda vivia. Hoje agradeço sempre que desperto e reflito: ainda posso existir e fazer diferença em algumas vidas. Existimos. Comparo-me ao que existe e dou graças à minha existência. Sobre o sofrer, não deixa de ser inclusive necessário. Transformar o sofrer em uma necessidade da alma refrigera um pouco o desconsolo de responder "estou bem", mas pessimamente por dentro. Se estamos péssimos por dentro, provavelmente o problema é exterior. Estamos péssimos; não somos péssimos. Casais se separaram; casais estão para se separar; entes amados e amigos queridos se foram; projetos foram postergados; frustrações das mais variadas cuja intensidade depende de cada alma, de cada sensibilidade, de cada abstração. Paralelamente a algumas dores, há os doces sabores. É que a dor é exclusiva, ao passo que o doce deleite sempre é compartilhado. A dor é pessoal; a felicidade e o prazer quase sempre duvididos. Temos nossos filhos e sobrinhos e amigos que nos enchem de alegria compartilhada. Muitas vezes por eles persistimos. E isto é sério. Por incrível que pareça. Este ano mesmo, em fevereiro, minha vontade era pular de uma ponte, na Ponte do Jaguaré. Era domingo. Meu irmão até me chamou de fraco quando narrei para ele. Como disse, a angústia e o sofrimento são muito pessoais. Não pulei. Uma força invisível me empurrou para fora de lá. Duas horas depois recebi um lindo comentário sobre meu livro. Sentei no meio fio do parque Vila Lobos e chorei. Pelo salto mortal que não dei e pelas palavras de tanto carinho. Como escrevo na praia este texto, meu filho na água, o sol no meu chapéu, vejo uma multidão de corpos.  Maliciosamente corpos femininos me encantam e sinto a felicidade de ser vivo com o propósito de admirá-las cheio de desejo. Não é por outra razão que existe a beleza. Toda beleza precisa de olhar. Para mim a vida é este caldeirão ou cadeirada em que basicamente o belo interno são desejos não reprimidos, ainda que não satisfeitos. Sim. Desejar já basta. Desejar um amor sem tê-lo já basta. Desejar uma viagem sem fazê-la já basta. Desejar um corpo sem tê-lo já basta. Desejar motiva para a realização. Sem o desejo nada na nossa cultura existiria. Sou daqueles para quem a ideia precede a ação. Retomando o início, uma vida não pode viver com tantos amores, diferentemente de tantos desejos, que são infinitos. Como para mim amar é sacrificar-se, cada amor haverá um quê de sacrifício. Não dá. Não é possível. Por fim, 2014 e 2015 foram os anos talvez mais perdidos de minha vida. Mesmo assim, publiquei livros, dei palestras, dei aulas, conheci amores momentâneos e me sacrifiquei ao extremo. Aliás, acaba de passar diante mim duas lindas bealdades que nem sabem de minha existência e que ficarão marcadas nesta reflexão. Não dá para viver com tantos amores, mas dá vontade de amar a cada momento. Amar não: desejar a cada momento. Eu desejo sempre. Coisas boas, do bem, edificantes. Desejo a todos...

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