Dormir e acordar. E no sono uma outra vida se inicia. Uma vida virtual? Neurologicamente, parece que não. O sono traz mais do que benefícios à nossa mente do que o nosso estado de vigília. No sono, o cérebro permanece da mesma forma ativo. O que descansa em nós são os sentidos como ver, cheirar, degustar, ouvir e tocar. Eu me refiro à parte fisiológica disto tudo. Lá em nossos neurônios tudo isto ainda existe com a precisão que os sonhos trazem. E quero falar justamente de sonho.
Um amigo me perguntou qual sensação que eu tinha quando acordava. A sensação inicial. Não hesitei e falei: paz. Falo seriamente. Porém, e já disse, por alguns anos, cada despertar para mim era uma tortura. De modo trágico, falava para mim mesmo "acordei?", e em seguida uma sensação de dor invadia minha mente, uma dor esquisita e emocional que somente parava quando retornava a dormir. Meu período de depressão: dos 18 aos 22. Foi cruel.
Por este motivo meu despertar envolve paz hoje em dia. Machado de Assis diz que "somente no meio da guerra que melhor se apreciam os benefícios da paz". Estive em conflito no passado; sei da paz emocional que envolve meu presente, como da guerra do passado.
Um dos sintomas de como anda nossa vida emocional é a natureza de como acordamos. Os segundos iniciais dizem muito. Não falo de acordar por causa de uma explosão, ou um grito, ou um pesadelo, ou vontade de urinar. Falo abrir os olhos em um dia normal. O despertador do celular toca (o meu é Waterworld), seus olhos se abrem calmamente e o mundo dos sentidos o recobrem nas mesmas sensações. Os segundos dar-nos-ão os sinais. Paz ou desconforto na alma? No meu caso é o agradecido preenchimento de paz.
Não implica, porém, que assim que eu me lembre do mundo em que vivo, dos problemas que tenho, dos tantos conflitos externos contra o quais tenho que me indispor, não me tornam o espírito aborrecido. Respiro mundo. Recordo-me da paz ao despertar e, como disse, agradeço pela saúde de meus sonos e descanso.
Sou um apaixonado pelo inconsciente. Constantemente saltam ideias de lá para meu consciente e aproveito as palavras que tenho para materializá-las. Um bom sono cheio de sonhos (inclusive pesadelos!) é ótimo termômetro para medir como anda nosso inconsciente. Apenas uma intuição. Acho que tanto meu período de depressão em minha vida quanto o período de paz estão ligados à minha relação com o entendimento de meu inconsciente. Ele é meu parceiro e nos damos bem. Eu o respeito. Deixo-o liberto para me revelar as verdades que constituem minha essência. Não consigo enxergar verdadeira felicidade, senão através da libertação de nosso inconsciente, afinal, é nele que moram os traumas, os recalques, as repressões, os toques, as neuroses e semelhantes formas de desacordo com a vida. Gosto de dizer "vai por mim". E digo: vão por mim! Reparem e estranhem aquilo que parece automático. Inclusive nos segundos iniciais ao despertar. Vão por mim.
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