Primeiramente. Você nunca irá me abandonar. No dia em que você partir, certamente não foi abandono, porque abandono na verdade é um modo desesperado de fugir de alguém. Você não me abandonará, porque não fugirá de mim.
Eu verei, neste sentido, que na verdade você encontrou alguém ou algum motivo melhores, e é justa uma troca para o melhor.
Minha cabeça humanista prefere a felicidade alhei à vaidade pessoal. Não digo que vaidade é amor próprio. Eu mesmo tenho muito amor próprio sem ser vaidoso. Amar a si mesmo nunca traz solidão. Diferente da vaidade.
Caro que estar só falta um pouco o toque alheio, o olhar alheio, a voz alheia para saber que existimos para alguém como corpo e alma. Coisa que, aliás, um bichinho de estimação, como cachorrinho, sabe fazer e preencher bem nos seus limites.
Mas no dia em que você me abandonar, eu vou traduzir seu gesto como se você me trocasse por algo igual ou melhor. Não me vejo em motivos de abandono: vícios, agressões, traições das mais descabidas, irresponsabilidades angustiantes, falta de cuidado simples, desprezo ou implicância, ou ameaças. Estas coisas do gênero geram o abandono, e o mais rapidamente possível.
Minha tese amorosa é que a vida sentimental entre as pessoas é uma pequena parte de nossas vidas emocionais. A filosofia, a leitura, a arte, esportes são bastantes sólidos em uma eventual separação.
Por isto que se você partir em um momento, não será abandono. Será um patamar acima em que subiu e eu não conseguirei alcançar. Sei que a pessoa olhará lá de cima julgando algumas coisas ruins minhas e até justificará com argumentos inventados na cabeça para o inevitável abandono.
Não vou dar detalhes porque machuca quem já sofreu por causa disto. Agradeço a Deus por Ele sempre ter sido misericordioso comigo já que nunca me faltou inteligência acima, encantamento transbordante, motivação firme, dedicação excessiva e até relativo sucesso profissional em que pudesse ser tudo, menos um ser desprezível. Misericórdia divina.
Não fale então em "se um dia eu o abandonar". Fale mais precisamente "um dia meu mundo pode ficar mais do que o seu e eu posso ter de ir para não me sufocar". E, sinceramente, pegarei as mãos da pessoa, olharei para os olhos dela, beijarei as duas com muito carinho e falerei:
- Você deve ir. Mesmo. A vida tem me ensinado que amores se sobrepõem uns aos outros. Eu fico. Você vai. Amores vêm e vão. Me sinto feliz assim. Espero que cresça no bem que esta sua nova etapa de vida lhe trará. Isto não é abandono. Isto é gratidão. Vai com Deus.
E não mais beijarei. Nem mais falarei nada. Só que meu coração funciona com limites. Uma vez fechado, ficarei apenas com as memórias passadas. E nunca mais com memórias futuras. Reservarei as memórias futuras e presentes para outros corações.
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