quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Capítulo 1

Capítulo 1

Páginas cansadas de minha vida foram relidas ultimamente. Não quero pensar de modo poético. Nem quero saber do cheiro amarelo que é a impressão que dão alguns livros velhos sem sabedoria e sem experiência. E esta reflexão foi depois do café com pão pela manhã na mesa. Minha mãe na cozinha fazia algo. Provavelmente areava uma panela. Assisti alguns minutos de Bom Dia Brasil. Meus irmãos gêmeos a caminho da faculdade. Fazem engenharia na FEI. Meu pai, aposentado tem poucos dias, dormia um sono merecido depois de tantos anos como vigilante noturno.

Tomei café da manhã. Fui para o ponto de ônibus. Sexta-feira era meu rodízio. Na lanchonete de esquina, cumprimentei de longe o Aílton que é o primo do Caetano que é padrasto de um conhecido de infância, que foi o primeiro menino que brigou com o Cotonete na escola.

Mas as orelhas do Cotone eram grandes. Nem lembro mais do tamanho para comparar com um absurdo colossal qualquer. Arrumamos muitas brigas por elas. Eu as defendia pequenas. O mundo as dizia enormes. O Cotonete era um toco de ninguém e deficiente físico. Eu já era alguém o dobro do tamanho dos meninos, e com três anos a mais. A minha força dava medo aos abusos que infelizmente seriam diários no Cotonete, até quando nos cansamos das brigas e nem mais orelha nem mais o Cotonete perdiam a pose de andar com a cabeça erguida pelos corredores apertados da E. E. Prof. Santos Amaro da Cruz, na zona leste de São Paulo. O bullying cansa na maturidade e na porrada.

Amadurecemos muito rapidamente. Eu amadureci demais com ele. Sei que o respeito pelo Cotonete foram meus músculos e porte físico. Vale bem o dito "se não for respeitado, que seja temido". Me temiam. Passaram a respeitar o Cotonete. Eu já tinha a alma envelhecida com quatorze anos na quinta série. Já se foram vinte anos desde 1995. O Cotonete ficou jovem na imagem das minhas retinas internas e nas poucas fotos de passeios que fizemos. Eu sinto muita falta dele.

Ele era inteligente porque conseguia tirar boas notas nas provas e sabia ler muito bem. Estudar era muito confuso para mim. Eu olhava para as perguntas nas provas e nem tinha ideia de onde viriam as respostas.

Eu olhava tudo ao meu redor, desde criança, e via sem sentido qualquer explicação, e me perdia sempre. Começou a piorar demais com onze anos. A imaginação dentro de minha cabeça, ou excesso de realidade - como me diria no futuro meu neurologista, o pai do Cotonete - não ligavam simultaneamente as diferentes realidades entre a causa e o efeito. Eu me perdia em um ponto e não voltava aos demais. Era angustiante ser chamado de retardado e burro.

Sempre sentei no fundo da sala. O Cotonete na frente. Eu era alto e mais velho. Não fosse a Progressão Automática de 1995 que o Governo milagrosamente implantou, eu continuaria na quinta séria por mais e mais anos até desistir. Na quinta série. Sempre a quinta série.

Na primeira semana de aula de 1995, eu e o Cotonete viramos amigos e parceiros. Era o burro e o inteligente; o forte e o deficiente; o pobre e o rico; o pardo e o branco raquítico. Valeu cada momento entre nós. O Cotonete tão franzino, ainda mais com os defeitos no corpo, e meu jeito mulato encardido de falta de banho pela preguiça. Ambos parecíamos os restos de humanos. O que tinha de humanidade nele, ele ia para cima de quem quer que fosse para brigar já no primeiro dia de aula. Qualquer riso que mexesse em seu brio era pau e porrada. Neste mesmo dia, viramos amigos, mas antes ele me xingou, quando fui ajudá-lo:

- Seu filho da puta! Eu me defendo sozinho.

E me chamou de cabeça de elefante e nariz de tamanduá. Eu repliquei na hora:

- Cala a boca, seu orelhudo! Vai, seu cotonete!

E aí pegou o apelido. A briga parou entre ele e o Cheirinho, que era primo meu, e ele veio para cima de mim.

- Cotonete é a puta da sua mãe, seu viado.

Nem ri, nem me ofendi. E Cotonete ficou. No princípio ele brigava desengonçado por causa do Cotonete e recebia qualquer hematoma. Era sangue ruim o menino. Mais apanhava e nunca batia. Aos poucos o Cotonete soava mais malandro do que Luiz Gabriel De Lucca Anstrand Stanovitch. Depois de um mês era o contrário. A valentia do Cotonete viria ao chamá-lo Luiz Gabriel.

- Meu nome é Cotonete, caralho.

Ele tinha que usar muletas mas se recusava. Arrastava os pés, se equilibrava como podia, tentava acompanhar o ritmo de todos, inclusive no gol. Ninguém queria ir no gol. Ele de luvas tomava o lugar e era sempre o primeiro escolhido. Quase sempre eu no mesmo time. Sou alto e gordo e forte. Ficava atrás. Na zaga. Meu instinto de protegê-lo. A bola passava. O jogador não. Coisa de moleque. E o Cotonete era mesmo perigoso. Não tinha bola perdida e nem chute forte, nem pancada dura e nem dividida covarde. Ele foi parar duas vezes no hospital. Uma porque bateu a cabeça de cheio na trave e apagou. Todo mundo achou que morreu. A outra foi a perna quebrada. A perna mais boa dele, ou menos pior, se partiu em três, consertada pela própria mãe, que era traumatologista. Foi quando teve de ir de cadeira de rodas para a escola. Estou falando de três meses de ano letivo, final de maio de 1995. E, claro, quem virou o empurrador do aleijado fui eu. Pedido de sua mãe. Eu faria de graça. Mas o pai era médico, a mãe médica, muita grana. Aceitei e gastava tudo com o Cotonete mesmo. O cômico foi que antes da mãe me pedir e pagar pelo favor, eu lá na escola já o empurrava assim que ele chegava com a perua. No pátio, perna engessada, comendo o macarrão com frango cozido no prato de plástico azul e uma colher de plástico toda arranhada por diferentes dentes:

- Que porra você veio parar na escola pública, Cotonete?

- Eu quero viver, Babão - era assim que ele me chamava porque ele achava que eu babava quando comia. Quando fiz dez anos me cansei. Vida de aleijado para cá. Vida de aleijado para lá. E deficiente. E motorista particular. E burguesinho cheio de redoma e proteção. E não pode muita coisa. Não pode aquilo. Meus irmãos por parte de pai se desenvolvendo no corpo com a liberdade que a perfeição dava e eu somente nos livros, estudando, notas altas, aluno exemplar e aleijado excluído da porra da vida social. E o médico disse que minha condição é crítica. Meus ossos não acompanham meus orgãos. Antes dos vinte já era. Então eu pensei. Caralho! Que se foda. E falei para a minha mãe que queria estudar na escola pública. Viver livre. Saber o que é isto. Viver.

- Vai morrer tantes dos vinte?

- Vou.

- Falta oito anos.

- Eu sei. Eu até vou corrigir você, Babão. O certo é faltam oito anos. Mas que se foda a gramática toda, que não me vale merda alguma.

- Faltam oito anos, eu me corrigi para me sentir menos burro.

Assim pude entender um pouco mais por que aquele moleque que admitia para mim ter grana foi parar na escola pública. O recreio acabou. Eu o levei para sala. Fomos para sala. Eu o deixei na frente e fui para meu fundo, que era onde eu achava que os burros deveriam ficar para se esconderem mais e não serem vistos. Como não aprendia nada, tanto melhor para mim e valia-me um bom prêmio e consolo emocional a absurda explicação do fundão.

- A sua perua, Cotonete.

- Perua nada, Babão. Vamos de cadeira de rodas até em casa.

O sol estava forte. Final de mês de maio. O dia linda, na verdade.

- A gente tá na Barreira Grande! Até Anália Franco é caminhada.

- Que se foda. Vamos. Você me empurra. Você é gordo e forte. Vai se foder.

- Caralho, Cotonete.

Era subida e descida até a Anália Franco. E o filho da puta foi o caminho todo falando e se mexendo. Bem umas duas horas. Tinha vontade de soltá-lo numa ladeira na avenida e deixar ele se espatifar onde fosse.

- Solta, caralho. Solta esta merda para ver no que vai dar. Solta, Babão.

E o moleque falava com um brilho nos olhos, batendo nas minhas mãos, empolgado.

- Solta esta merda, Babão. Seja homem, cabra!

Faltava coragem. Jamais. O moleque morria. Foi quando eu falei.

- Cacete, Cotonete. Por que não pula de paraquedas? Vai morrer mesmo. Vai ser livre no ar.

E foi um silêncio reflexivo por minutos. De repente ele sussurra alto.

- Mas por que merda eu não pensei nisto até hoje? Que porra. Babão, acelera aí que quero chegar em casa mais rápido e falar para a minha mãe. Que dá hora. Pular de paraquedas. Cacete!

E ele deu para uivar alto com o bico dos lábios, batendo as mãos nas rodas da cadeiras, como um lobo na presa ou pássaro para voar. E não foge de minha cabeça que era uma descida íngrime. O filho da puta quase escapou duas vezes da minha mão. Se fosse naquele momento, certamente ele iria se foder.

- Acalma aí, Cotonete. Acalma aí, cacete. Tá escorregando. Minha mão está escorregando.

- Acelera, Babão. Empurra esta merda logo. Ou solta de uma vez.

Demorou, mas chegamos. Eu cansado demais. Claro que o lugar valeu muito. Um duplex do cacete. Lá no último andar. E a piscina privativa. No elevador o moleque foi gritando.

- Paraquedas, caralho!

Sambava com as mãos, com os lábios, a cabeça e a merda da perna quebrada.

- Você vai pular comigo, Babão. Vai pular comigo.

Nem alimentei esperança. Pés no chão é o que me alimenta. Subir os vinte andares no elevador já me deixou grogue. E a vista de São Paulo da cobertura? Que era aquilo? Na favela, meu barraco dava para o córrego a dois metros de altura. E sem sentimentalismo da favela. Aqui é São Paulo. Favela significa economizar no aluguel.

Estou falando quando eu tinha 14 anos. Hoje saí de lá. Fiz faculdade. Gerente de banco estrangeiro. Meus irmão estudam engenharia. Meu pai aposentado. Minha mãe em casa, deixando as panelas brilhando e a gente vive em uma casa bacana.

A vida do passado e do presente assemelham-se apenas à nossa memória porque fomos nós que a vivemos. No passado era na favela para mim em contraste com aquela cobertura que fazia perder a vista da cidade de São Paulo inteira para o Cotonete. E o enjôo? E a vertigem? E a labirintite?

- Que lugar alto da porra, Cotonete.

E ele chegou eufórico. A empregada abriu a porta. Nem me reconheceu no início. Ele ligou para a mãe e disse que tinha um sonho. Não deu detalhes. Falou que eu estava lá. Disse o nome da favela em que eu morava. E que eu era seu parceiro carne e unha.

- Ele vai pular comigo. É ou não é, Babão? - gritou e eu distraído sentado no sofa da sala, intimidado.

Nem respondi. Mas em menos de vinte minutos aparece a mãe dele, e a primeira coisa que ela fez foi olhar para mim com ar de medo. Duraram segundos. Alto, gordo, amulatado, roupas encardidas. Conversava com Cotonete e olhava para mim. Algumas palavras para ele e outros olhares para mim. Ser favelado ajudou muito na impressão de bandido e mal-elemento que o filho da puta do Cotonete me pintou.

- Babão, foi mal, confessou ele. Só falei que você era da favela porque eu sabia que ela viria para casa na mesma hora. Ser inteligente tem disto. A gente vai manipulando quando quer e der. Mas também ser rico é foda mesmo. Ainda mais o rico que tem a perder e acha que a vida é eterna. Sou rico e vou morrer com o tempo marcado. Que se foda!

Nestas alturas, a gente estava na piscina. Ele meteu saco plástico na perna que para pouco serviu no gesso. Era já umas quatro horas da tarde e o sol batia na cara. Antes a gente comeu lá na mesa. Comida boa. Rica. Verduras como alface lisa, crespa e roxa. Duas opções de carne. Uma assada e galinha caipira ao molho com batata. O purê substituiu o arroz. O feijão era branco. Muito bem temperado tudo. Suco na jarra. Os talheres eram pesados, assim como o prato e o copo comprido. Guardanapo era pano. As cadeiras pareciam poltronas pequenas. Aveludadas. Daria para dormir nelas. Foi só então que a Fátima me reconheceu em silêncio. Quem serviu foi a Fátima. Vizinha minha de barraco. O dela alvenaria. O meu ainda madeirite.

Brincadeira, né? A novela está na vida real, né? E na novela o figurinho e a cenografia deixa tudo limpinho, maquiado, arrumadinho, cheiroso, sem repugnância alguma. Na novela a pobreza tem glamour. Eu só era grande e tinha força para levar o Cotonete para casa e defendê-lo. Quem sabia que ele era rico? Eu não. Só tive compaixão com o indefeso aleijado folgado que não levava desaforo para casa e apanhava mais do que batia. Faria com um cachorro na rua sendo judiado ou com um bêbado humilhado. Minha predisposição a ajudar me levou a um banho de piscina num duplex no Anália Franco.

Supervisionado pelos olhos comunicativos da mãe de Cotonete cujo nome darei mais para frente, eu me sentia feliz se aquilo tudo fosse meu. A vida está na novela e a novela veio à minha vida. Fui servido na mesa pela minha vizinha, tão favelada quanto eu. Mentira. O barraco dela era de cimento. O meu madeira. E quer saber? Ela me serviu com tanto prazer que me senti até rico. Mas rico na alma, que é o estado de felicidade. Fiquei até as sete hora da noite. A mãe do Cotonete não queria que eu conhecesse o pai. Não disse explicitamente por quê. Hoje eu intuo, né? Hoje eu vejo as coisas porque na vida o movimento é simples. Basta a experiência fazer parte da alma que vamos aprendendo aqueles comportamentos. E admito que o Cotonete me falando que eu era da favela para que a mãe viesse correndo para o seu duplex foi demais para mim. Aprendi muito.

- Luiz Gabriel, perguntou no sofá, por que você falou sobre pular de paraquedas agoro há pouco? Que história é esta?

A gente jogava video-game. Nem me vem agora qual jogo era e nem o console. Nunca me aficcionei e nem entendia bem daqueles jogos. Me perdia. Me perturbava. Tinha dores de cabeça e sentia minha mente bagunçada com tantos detalhes ao mesmo tempo. Eu assistia.

- Pera aí, mãe. Estou jogando. Pede um suco de maracujá e uma taça de sorvete para a Fátima para mim.

Ela levantou. Foi à cozinha e preparou sem importunar a empregada, passando a roupa. Trouxe para mim e para ele. De quebra umas bolachas que começavam crocantes e sequinhas e depois derretiam na boca com pequenos pedaços de chocolates. Que maravilha!

- Nossa! Que delícia esta bolacha!

- São cookies, Babão. Para de ser besta. Nunca comeu cookies.

- Nunca comi esta bolacha não.

- São cookies, caralho! Que porra de bolacha!

A mãe ao lado. Nem um olhar de bons modos deu ao Cotonete. E foi a primeira vez que eu o chamei de Cotonete na frente dela.

- Olha o respeito, Cotonete. Sua mãe está aqui.

- Babão, vai se foder você e ela. Você é cheio de falar palavrão a cada minuto, caralho.

- Mas não na frente da minha mãe.

- Vai se foder você e ela, to jogando, e não tira mais a minha atenção.

Tanto a mãe quanto eu ficamos em silêncio. Eu comi mais de cinco daquelas bolachas e tomei dois copos de suco de maracujá. Os sorvetes viraram sopa para beber. Nenhum dos dois tocamos nele e possivelmente foi para o ralo. Uma meia hora depois, a empregada Fátima diz que vai para casa. Terminou a roupa. A mãe, gentil, agradece o cuidado e o dia. Não a beija. Despede-se até amanhã. Por fim, parou o jogo de cansaço. Minha mente doía demais com aquela confusão de imagens que ficavam sem nexo muito rapidamente em mim.

- Mãe, quero pular de paraquedas. Vou morrer mesmo. E a ideia nem foi minha. Foi do Babão.

"Ah, filho da puta!" - pensei nitidamente sem saber o que falar.

- Me explique melhor, pediu a mãe a mim.

O pior foi que acabei me traumatizando pelo sabor dos cookies que tinham sido até então das coisas mais saborosas que havia comido na minha vida acostumada ao gosto de alho, cebola, açucar e sal. Como xinguei mentalmente aquele moleque.

- Pode falar, Babão, insistiu para que eu dissesse.

- Bem dona...

- Cláudia.

- Bem, dona Cláudia. O Cotonete, quero dizer, o Luiz Gabriel...

- Cotonete, caralho. Para de putaria, Babão.

A mãe consentiu sem muita explicação. Babão narrou a loucura que o filho dela teve de pedir para soltar a cadeira de rodas ladeira abaixo na avenida. Só porque eu brinquei falando que dava vontade de soltar de tanto que ele se mexia e eu já cansado. E falei para ele pular de paraquedas se quisesse emoção. Ele ficou em silêncio. Depois empolgado me apressou para chegar logo aqui porque ele queria ligar para você.

- É isto aí, dona Cláudia, disse Cotonete, e falei que ele era favelado porque eu sabia que a senhora largaria tudo para vir correndo para casa.

Ela olhou para mim com outra expressão de espanto só que agora diferente.

- E você mora na favela, Babão.

- Eu já disse que sim, dona Cláudia, insistiu o filho. Vamos marcar, mãe, para pular de paraquedas. Vamos eu, você, o Babão. Sem mais ninguém.

O pai do Cotonete era neurologista e diretor do Hospital e Maternidade São Luiz no Itaim. Na época nem o Itaim Bibi, nem o Itaim Paulista eu conhecia. Se bem que não conhecia nada mais, senão mesmo o caminho do meu barraco à escola e da escola ao meu barraco. Aprendi vir ao duplex do Cotonete por causa dele. Aliás, a partir deste dia ele só vinha de perua para a escola. E voltava comigo. Inclusive um mês depois, quando ele tirou o gesso. Sem mais cadeira de rodas. Éramos passos lentos. Uma amizade com hora marcada. Aliás, passei a viver com hora marcada minha vida toda, e por este motivo resolvi contar tal história. Ganho horas extras para o vazio da eternidade que, na essência, nada quer dizer senão que ser mortal é bem mais excitante do que ser para sempre o que uma hora na vida humana acaba.

- Então você quer mesmo pular de paraquedas, menino?

- Com a certeza de que a morte virá e eu nem ligo para ela.

Neste dia aprendi a analisar os discursos. Eu, que nunca aprendia nada, aprendi algo importante para a minha vida. Não compreendia nada. Tudo passava pela minha cabeça de um jeito tão confuso, caótico, disperso, tive lampejos de compreender algo. As palavras que seguirão certamente não eram as que meu entendimento me deu entre mãe e filho. Cotonete não se defendia ao ser agressivo, direto, falar palavrão, debochar, mandar e até ironizar a mãe chamando-a pelo nome, dona Cláudia, que me incomodava tanto. Ficou claro que havia entre eles uma morte que aconteceria em alguns anos, porque os ossos do menino não acompanhariam na mesma proporção o crescimento dos órgãos internos. A tal da deficiência era estrutural. Fosse ele uma lesma que se danasse os ossos. Mas eles seriam compressores silenciosos. Era um fato. E todo fato exige maturidade. Para mim, era assim que Cotonete queria viver a vida. Um homem consciente para onde iria. O palavrão era seu melhor recado à sua vontade. Uma criança de onze anos com seu tempo bem definido. Isto trouxe a experiência precoce de viver prematura, mas conscientemente. Hoje, distante, vejo este meu primeiro encontro com a mãe dele assim. Uma vontade de ambos serem maduros. Nada de chantagem. Nada de exploração. Nada de abuso. Nada de cinismo. Era o homem que inconscientemente fazia a mãe sofrer o mínimo possível.

O tempo passou e o céu escureceu. Eram oito horas e eu tive de ir embora. A mãe do Cotonete falou que iria me levar. Neguei. Ela me ofereceu um taxi. Nunca havia andado de táxi. Neguei. Falou para eu dormir lá. Neguei. E a cada negativa era:

- Não, senhora. Obrigado.

Não uma única vez a cada pergunta. Eram ao menos duas. "Não, senhora. Obrigado!". Ao final, aceitou e me deixou ir. Antes, porém, de abrir a porta o doutor Carlos Sampaio (vou chamá-lo pelo nome pelo respeito que eu lhe tenho até hoje!) entrou pela porta muito acelerado. Olhou para mim e perguntou para a mulher.

- Quem é o pretinho?

Foi tirando o jaleco. Colocou uma maleta na mesa ao lado da porta. Viu lá o Cotonete, perna engessada, de novo no video-game.

- E este pequeno vagabundo? É somente video-game o dia todo?

Eu achei que fosse mais uma brincadeira até que Cotonete se levantou, sem falar nada. Desligou o aparelho e a televisão. Foi saindo da sala para seu quarto me dando tchau.

- Meu inferno acabou de aparecer, Babão. Vai embora que este homem é o vampiro da humanidade. Vai sugar toda a sua felicidade.

- Cala a boca, seu aleijado. Vai para seu quarto e veja se dá para morrer antes dos vinte.

Neste momento olhei para dona Cláudia. Sim. Todos os dias. E em um ímpeto, ouvimos a porta do quarto bater com tanta força que tremeu a mesa. O pai não deixou por menos. Foi lá na porta, esmurrá-la e condenar a vida medíocre que o filho ajeijado teria. Pouco efeito fez. O som alto da música do quarto do garoto abafava. E em menos de cinco minutos aquilo.

- E quem é este pretinho? - voltou bufando.

- É amigo do Luiz Gabriel.

- Agora além de aleijado é amigo de preto, seu infeliz. Que maldição! Que vida maldita este moleque aleijado me trouxe. Por que não morre logo, infeliz? Por que não morre logo?

- Para com isto, Carlos, berrou dona Cláudia. Para com este inferno. Se for para sempre chegar assim, saia daqui e não volte.

- Um homem não pode ter dez minutos de paz dentro de seu lar. Fica então com este aleijado. Fica com este preto. Fica com este inferno de vida para você que eu vou sair com a minha paz.

Pegou a maleta. Pegou o mesmo jaleco. E bateu a porta tão forte quanto fez o Cotonete. Dona Cláudia encostou a cabeça na parede e colocou-se a chorar com as duas mãos nos olhos. Minutos depois, aparece Cotonete silencioso. Muito menos audaz e menos acelerado como de costume. Aproximou-se da mãe. Abraçou-a pela cintura. Ela o envolveu pelas costas.

- Mãe, eu não vou me matar. Minha vida, vou vivê-la intensamente até quando eu puder. As palavras de meu pai em nada me atingem na alma. Não sou eu quem tem problemas. É ele.

E dias depois Cotonete me narrou que assim que o pai soube que ele nasceria com problemas congênitos, quis o aborto imediatamente. Dona Cláudia em momento algum concordou. Foi até o final. Para piorar ela não pode mais ter filhos porque foi diagnosticada com um câncer de últero inicial, meses depois. Arrancou tudo. Pensaram em separação. Doutor Carlos Sampaio estava no segundo casamento. Tinha dois filhos com a primeira mulher. Porém, descobriu o que era paixão com a segunda, e não conseguia viver sem a Cláudia. Ele a amava doentemente e era correspondido. Mas o amor terminava na condição do único filho deles. Assim, as dores e os desesperos iniciaram com o filho aleijado que morreria cedo e nunca mais filhos teriam, simplificava a mente limitada do neurologista.

- Babão, como é seu nome de verdade?

- Carlos, antecipou Cotonete.

- Ok, Carlos. Está tarde. Vou levar você para casa. Onde você mora?

- Na favela Jardim Primavera.

- Vou levar você para casa. O meu Carlos somente volta amanhã. Como você viu, ele tem um comportamento bem diferente do que você está acostumado.

E para ser sincero não era muito diferente de alguns pais que eu já tinha testemunhado na favela. Nem mesmo um pouco diferente senão o óbvio da porta fechada na cara, da fuga para um quarto de hotel, de um escape entre filho e mãe num belo carro. Fora isto, mais nada.

- E vamos marcar o salto de paraquedas para a semana que vem, ela consentiu dentro carro.

O clima era ainda muito silencioso e tenso. Tive por mim a certeza de que aquilo seria mesmo todos os dias. Meu Deus! Quem suporta? Eu não sabia nome de rua alguma na época. Hoje sei que saímos do prédio do Cotonete. Descemos até a Abel Ferreira. Depois cruzamos mais algumas ruas até um trecho da Av. Sapopemba. Fizemos o contorno e pegamos Av. Barreira Grande para me deixar próximo à favela.

- Quer que eu entre com você, Carlos?

- Pode ir, dona Cláudia. Aqui estou em casa e me sinto seguro. Só mais alguns metros encontro meu barraco.

- Quero dormir aqui com ele, pediu Cotonete.

- Não. Hoje não, Cotonete. Amanhã você dorme.

Dona Cláudia agradeceu este meu início de bom senso que eu nunca imaginara ter e tive e sempre tenho hoje em dia. Despedi e vi o carro grande da mãe do Cotonete virar a esquerda na Av. Barreira Grande para Anália Franco. Cruzei o córrego. Entrei na viela e andei um pouco. Ao lado do barraco de minha mãe, a Fátima com a porta aberta me viu passar.

- Ficou até tarde na casa dos doutores, Carlinhos.

Disse sim com a cabeça.

- Viu que não importa onde haja riqueza, que paz alguma se compra com dinheiro. E saiba, meu filho, que é todo dia. Quando nasce o sol e quando se põe. No café da manhã e na janta. Dona Cláudia me pediu para nunca chegar antes do marido sair e nem sair antes de ele chegar. Ela se cansou de me ver testemunhar aquilo. Todos os dias.

Eu nada disse. Parei para ouvir mas no fundo não queria. Abri a porta de madeira. Meu pai no trabalho de vigilante noturno de obra, meus dois irmãos gêmeos distraídos com uma lata vazia de óleo cada e minha mãe preocupada se eu estava andando com bandidos por chegar aquela hora. Disse que não. E não disse mais nada. Foi a primeira vez que ela me viu silencioso. E somente a lembrei.

- Amanhã um amigo da escola vai dormir aqui em casa.

Ela tomou um susto. Era apenas um barraco que não cabia mais ninguém. Mas não recriminou. Retomou o que fazia na pia, areando a panela de pressão porque gostava de ver o alumínio brilhando feito espelho. E quase sempre conseguia. Ainda hoje o que vejo na minha mãe são panelas sempre brilhando linda e maravilhosamente. Minha mãe tem uma linda alma.

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