CAPÍTULO 10
Falei com ela. Tudo. Nem tudo. Não disse a A. a parte que mais toca meu coração, que tem me feito sentir a dor da solidão desejada por não desejar mais ninguém, senão ela. Nunca deveríamos nos importar com o que o outro sente por nós. Apenas o que sentimos pelos outro, e as aprendizagens que tiramos aquilo que antes não sabíamos. Coloquei um Pink Floyd e deixo agora Wish You Were Here no repeat. Já cultuo as amarguras do amor não correspondido? É uma pergunta de fácil resposta, mas que me inspira sobremaneira a minha vontade de querer amar, e amar, e amar muito para que haja sentido minha vida. Não existe melhor solidão do que aquela do próprio desejo de isolamento. Não sou um Romeu com dezesseis anos, que aliás é a idade de meu filho. Sou uma ideia de meu passado sendo reconstruído num amor que surgiu por acaso. Por acaso a vida surge. A., minha doce A., que não me ama, não me quer, não me enxerga, não me busca em momento algum, ao menos vive em mim como uma ideia perfeita, que me faz entender a perfeição de Platão, nas suas ideias filosóficas. Para a leitora apaixonada e não feliz no amor, assimilar a dimensão do que o amor provoca quando estamos no início, eu disse a ela as coincidências que cercam meu interesse por ela. Nome, seu aniversário, amores pregressos. "Poxa! Quanta coincidência!", e ela riso por mensagem. E eu escrevia este capítulo quando falou brevemente comigo. Deveria dá-lo por encerrado neste momento. Mas o frio que levemente me envolve na varanda de minha casinha romântica, simples, mas minha casinha, a canção do Pink Floyd, as duas cervejas, o charuto, me ar recluso, me levam a querer lembrar-me dos poucos sorrisos que me vem à mente quando a vi hoje, quase sempre furtivamente. Os poucos sorrisos dela, as poucas palavras trocadas, as incertezas. Mandei a ela o início deste capítulo, porque tive coragem, e nunca devemos nos envergonhar quando sabemos o que estamos fazendo. Parece racional. Mas não o é. Houve uma sincronia, que foi um presságio interessante. Eu coloquei-me a escrever e ela mandou-me mensagem. Eu respondi imediatsmente, porque gosto de vida dinâmica. Não existe vida sem resposta. Ela não mais me responderá. Mesmo porque o interesse é meu, a vontade é minha, as emoções são minhas. Sorte tenho de ela ter se mostrado gentil. Sabe o mínimo de gentiliza, porque é algo que vem da pessoa? Ela se me configurou assim. O mínimo de gentilize, que já é o céu para quem ama. Dou a ela em troca uma porção ainda maior dos meus pensamentos nela, que ora estão na canção que ouço, ora nas palavras que escrevo, olha no morro que se extende lá longe diante de mim, ora na euforia de amar e não querer perder uma mínima reflexão a respeito. Afinal, escrevo um livro, que pode tocar milhões de pessoas. Hoje, aliás, dei a ela um livro meu, que publiquei em 2014. Iria fazer uma dedicatória apaixonada, de um quase apaixonado sonhador. Soaria estranho, ou vulgar. Usei a palavra "amiga" quando queria dizer "amada", e disse "com carinho do amigo" quando queria dizer "de quem vem amando-a com pureza, leveza e verdade". Estou muito mais feliz e aliviado. A., minha querida, a vida são como folhas das árvores que caem no outono e voltam na próxima estação. A vida e as gerações humanas. Tantos amores já se passaram em nossas vidas e o privilégio de descrever a saudade do que eu nem tenho vai mexer com milhares de corações igualmente apaixonados quando lerem estas palavras. Se quem escreve sou eu, quem me inspira é você. Se sou o autor, você será a dona, com todo direito autoral. Mas o capítulo tem que findar. Mais uma vez lanço meus olhos para aquele enorme morro cheio de árvores diante de mim e ele me parece silencioso. Quem me olha escrevendo também me acha muito silencioso. Quem me olha assim, me acha indiferente ao novo futuro Presidente, se faz frio ou calor. Quem me conhece, quase nada tem a dizer sobre mim, fora daquilo que eu quero que me conheça. Não preciso que A. me diga nada sobre ela. Somente eu a quero feliz. Por isso acho que a amo. Eu a quero feliz. Sou feliz do meu jeito, porque sofro com dignidade o inevitável. Será inevitável dizer em algum momento por que eu acho A. um tanto triste? Não quero falar de tristeza. Vamos somente na parte de nos engrandece. Se ela quiser, prometo para mim mesmo que ela jamais será triste, dentro daquilo que a tristeza tem de inevitável na vida. Não a amo ainda. Está em construção. É bom sorrir com a alma, sem precisar do outro para nos fazer sorrir. Falando em sorrir, as cervejas que tomei estão me dando sono. Vou dormir. Quem sabe não sonharei.
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