terça-feira, 2 de junho de 2015

A Prostituta Iniciante (conto)

- Ontem eu fiz programa.

- Como assim?

- Sai com alguém e cobrei por isto.

- Como? Garota de programa?

- Isto.

A partir daí Jéssica e Beatriz ficaram em silêncio. De um lado, os olhos lacrimejaram, do outro, a face ficou pálida. As mãos não se desgrudaram.

- Era isto o que de importante você tem para me dizer?

- Não.

A surpresa virou espanto.

- Eu vou me mudar hoje.

- Por quê?

Enquanto uma recompunha os olhos, a outra deixou deslisar livremente as lágrimas. Quando tentava responder, a emoção continha, a voz soluçava. Ela respirava profundamente. Engolia o vazio. Desviava os olhos em direção ao par de sapatos vermelhos com salto baixo que usou ontem. Eram ambas bem altas. Modelos de lojas baratas no Brás e Bom Retiro.

- Vou virar garota de programa, concluiu. Vou ganhar bem mais. Cansei de desejar, sem poder ter. O mundo me conquistou. Eu me rendi. Ontem, em duas horas, recebi o cachê de uma semana.

A outra desejava tanto quanto ela o mundo do consumo. Seu corpo, entretanto, era sagrado porque o creme que passava, o perfume que usava, a roupa e acessórios que vestia, as horas de dedicação aos cabelos, unhas, depilação, o cuidado com os exercícios e caminhadas representavam todo valor em suas memórias. Ela queria ter sua velhice com boas memórias. Queria viver sem que nada roubasse seu propósito de dormir consigo mesma e ir aonde quisesse com a sacralidade de suas experiências e sensações, compartilhadas com emoção com os corpos que amava. Somos memórias. Somos nosso conjunto de emoções que arquivam nossas memórias.

- Vai morar onde?

- Num apartamento na Alameda Jaú. Acertei hoje de manhã.

- Não sei o que falar. Nossos mundos são tão parecidos.

- Você tem medo?

- Medo do quê?

- De virar garota de programa também?

O silêncio, então, suprimiu o som dos carros no Minhocão. Um andar acima próximo à estação Santa Cecília. Já nem mais era barulho durante o dia. Som ambiente.  Agora nada. Cegueira e surdez interna e externamente.

Veio à cabeça o cuidado do pai que ainda vivia em um pequeno sítio no interior do Paraná com a madrasta e dois irmãos pequenos por parte de pai. A crença de que a beleza pode ser uma arte no corpo de uma mulher, sem que o corpo domine a essência da beleza.

A professora Odete, que a motivou a ir para São Paulo:

"Você é linda, menina! Vai para São Paulo ser modelo.", e ela refletiu por cinco noites seguidas até decidir.

Saiu da pequena cidade Alexandra com o pai até a Rod. BR-277, onde esperou na estrada o ônibus. De lá até Paranaguá. Então Curitiba. Então São Paulo. Faz dois anos. Indicação da própria professora Odete. Ela ganhava.

- Tenho medo, admitiu. Não quero para mim. Não quero fazer programas, e chorou.

- Eu entendo. Você não tem perfil. Eu tenho. Eu quero. Eu gosto. Me sinto bem e não quero perder sua amizade.

O silêncio dialogou com fortes abraços e lágrimas.

- Já fiz minhas malas. Vou deixar dinheiro para a metade do aluguel dos próximos três meses. Estou indo agora.

- Não precisa deixar dinheiro. Já está quase noite. Dorme aqui.

A amiga levantou-se da cama. Foram dez meses de confidências e amizade.

No fundo, o corpo se comunica com outros corpos, intuia ambas. Seja no distanciamento dos sentidos: visão e audição; seja na aproximação: tato, olfato e paladar. Em síntese, a prostituição são nossos instintos de aproximação, o que faz da intimidade uma troca do dinheiro pelo corpo. É mais caro do que apenas ser modelo, em que o máximo que existe é apenas ser olhado, ser visto, ser um corpo envolto por alguns panos e bijuterias. O valor do corpo não é a beleza que há nele. São os sentidos que permitimos aos outros: próximos ou distantes. A prostituição paga a aproximação. Mais do que uma escolha, uma troca.

- Uma última palavra. Posso?

- Sim.

- O problema da prostituição é que não existe troca. Quem dá perde mais do que quem recebe.

- Existe sim. Eu sou meus sentidos de aproximação e eles me dão dinheiro. Aí eu faço o que eu quiser com o dinheiro. Compro o que eu quiser. Sinto-me feliz.

- Por vaidade de seus próprios sentidos, vale à pena ser um objeto de luxúria e prazer? Vale? Vale?

Ela não respondeu. Ficou magoada. Partiu. As amigas nunca mais se falaram.

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