quinta-feira, 18 de junho de 2015

Se eu pedir para você não ir, você fica?

- Se eu pedir para você não ir, você fica?

A pergunta foi tão esquisita quanto a confusão sobre o que responder. Ficar ela queria. Ir era, no entanto, as circunstâncias. Há momentos que devemos ir.

Ao lado, um motoqueiro buzinava na rua noturna, por volta das dez horas. Sumiu na primeira curva à esquerda.

- Me deu vontade de comer pizza.

- Fica?

- Eu não sei. Achei confusa a pergunta.

- Qual eu fiz mesmo? Não me lembro.

- Se eu não for embora, se eu fico...

- Isto. Isto mesmo. Se eu pedir para você não ir embora, você fica?

- Claro que eu fico, se eu não for embora.

- Por favor, leia nas entrelinhas. Não consigo ser direto. Você fica?

- Tenho que entrar.

- Então você vai.

- Eu tenho que entrar. Está tarde.

As mãos dela estavam frias. O braço também. Inclusive o pescoço. O olhar de ambos era o cansaço do fim de trabalho. Conversaram no caminho de volta sobre o dia de hoje, o momento de cada um e o dia de amanhã. Com interesse recíproco.

- Eu entendo você, disse ele. Eu acho que me entende também, mas sempre foge de mim porque lá onde prefere ficar. A distância atenua a lembrança porque a saudade se distrai facilmente no mundo de quem somente quer ir e não permanecer. Eu entendo.

- Eu disse que se eu não for, eu fico.

- Comigo?

- Preciso entrar.

As mãos dela ainda frias. As dele sempre quentes. Era muito gostoso o contraste para ambos. Havia uma razão para o toque. Sempre é importante uma razão qualquer para a troca. A troca implica um ganho recíproco. Na troca existe o amor da pequena entrega. Um equíbrio que vai além da física ou química. Passa pela existência e acalanta ambos corações.

- Por que sua mão é sempre quente?

- Para aquecer a sua sempre fria?

- Está tarde.

- Fica?

- Com você?

- Comigo.

- Eu quero, mas não vou falar que eu quero.

- Você acabou falar que quer.

- Pensei alto. Falei para eu mesma ouvir. Se você estivesse me deixado ir, não teria ouvido meus pensamentos.

Ele puxou as frias mãos dela e as tocou em seus lábios, carinhosamente. Duas. Três vezes. Com os olhos fechados.

- Preciso ir.

- Eu sei.

- Boa noite.

- Boa noite.

Ao cruzar a rua, pela janela, disse-lhe com o olhar apaixonado:

- Você está indo. Eu sei. Pode ir. Eu gosto da liberdade. Mas ainda sim, ao menos para mim, você está aqui, comigo. O amor tem destas coisas. A pessoa parte. Mesmo assim ela fica. Não exatamente como queremos. Fica. Para onde quer que você for, ficará em mim. Transformo tudo isto em saudade e vou vivendo, vou esperando. Talvez um dia você me...

- Boa noite, ela o interrompeu de longe.

- Boa noite, ele sorriu.

Ao virar a esquina, indo para sua casa, ela pensou na fome que a falta de comida dá e sussurrou para que ele pudesse ouvi-la longe dela:

- Eu te amo, meu amor. Claro que eu fico. Você está mais em mim do que eu em você. Eu sempre serei sua até quando meu coração não pertencer a mais ninguém.

Ele não a ouviu. Partiu para a sua casa. Com o coração feliz. Amar deve ser comemorado sempre. É um sofrimento que no fundo renova. Talvez um dos motivos inconscientes dela de não ficar naquele momento. O amor a faz sentir-se outra e renovada todos os dias. Foi assim que ambos chegaram em casa. O amor renova todos os dias os dois corações. Com ou sem a troca. Se soubermos tirar proveito do amor até a solidão de viver sem o outro se justifica na renovação diária do sofrimento. Ficar, afinal, é uma decisão bilateral. Já amar não...

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