terça-feira, 9 de junho de 2015

Miguelito

(pequeno trecho de "Miguelito: Memórias")

─ Que perfume este tambaqui, Adelaide, disse sobre o peixe no forno, ainda com a batina, mas já se desbatinando.

─ E a missa, Miguel?

─ Tristeza, mas é vida que se segue ao mesmo tempo.

─ E o da finada?

─ O Firmino está com o garoto.

─ Vai adotar mesmo?

─ Não é o primeiro, Adelaide.

─ Mas os outros são seus filhos!

─ Nem todos. Nem todos, lembrou-lhe o padre Miguel que mudou de assunto, abrindo o armário dos vinhos.

─ Onde está aquele vinho branco chileno que eu ganhei semana passada do Dr. Cintra? Eu tinha deixado aqui com os outros.

─ Já está na geladeira, Miguel.

Um peixe sempre acompanha um vinho branco, e um vinho branco sempre acompanha o bom da vida. Refletiu com o aroma do assado e abriu a garrafa. Amava o breve estampido da rolha. Uma de suas coleções: rolhas de garrafas. Cheirou a rolha. Bom. Muito bom. Padre Miguel era prático e a cada segundo refletia se realmente valeria todo sacrifício viver. No fundo sabia que não. Viver é sofrer, e lembrou-se do filósofo alemão Schopenhauer. Resgatou suas memórias de criança já que a língua alemã é sua língua nativa. Mais fluente que português  e língua dos filósofos. Como todo filósofo é discípulo da morte, antes de morrer que tivesse seus momentos de prazer também. Lembrou-se do filósofo grego Epicuro.

─ Hoje à tarde, refletiu, serei mais um hedonista, porém.

Além do peixe, mandou goela abaixo duas garrafas inteiras de vinho branco e três doses de conhaque. Comeu do peixe e depois bebeu até anoitecer, sentado na sua poltrona de vime recoberta por couro tratado e acolchoado macio.

Viver é sofrer, disse para sim mesmo, logo no início da noite dialogando com o cérebro discreto e totalmente embriagado. Para o sofrimento, filosofia, bebida e uma soneca!

Adelaide tirou os sapatos dele nos primeiros roncos. Ela cuidava muito bem daquele homem de coração bom. Permitiu ao padre entrar noite a dentro com a mesma cara de homem bom que o acompanha nos seus momentos mais duros, que são partes constantes de sua vida. Bebidas e mulheres eram seus pecados. E vivia ainda para Deus. Adormeceu e amanheceu seu punhado de horas naquela poltrona.

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