(pequeno trecho de "Miguelito: Memórias")
─ Que perfume este tambaqui, Adelaide, disse sobre o peixe no forno, ainda com a batina, mas já se desbatinando.
─ E a missa, Miguel?
─ Tristeza, mas é vida que se segue ao mesmo tempo.
─ E o da finada?
─ O Firmino está com o garoto.
─ Vai adotar mesmo?
─ Não é o primeiro, Adelaide.
─ Mas os outros são seus filhos!
─ Nem todos. Nem todos, lembrou-lhe o padre Miguel que mudou de assunto, abrindo o armário dos vinhos.
─ Onde está aquele vinho branco chileno que eu ganhei semana passada do Dr. Cintra? Eu tinha deixado aqui com os outros.
─ Já está na geladeira, Miguel.
Um peixe sempre acompanha um vinho branco, e um vinho branco sempre acompanha o bom da vida. Refletiu com o aroma do assado e abriu a garrafa. Amava o breve estampido da rolha. Uma de suas coleções: rolhas de garrafas. Cheirou a rolha. Bom. Muito bom. Padre Miguel era prático e a cada segundo refletia se realmente valeria todo sacrifício viver. No fundo sabia que não. Viver é sofrer, e lembrou-se do filósofo alemão Schopenhauer. Resgatou suas memórias de criança já que a língua alemã é sua língua nativa. Mais fluente que português e língua dos filósofos. Como todo filósofo é discípulo da morte, antes de morrer que tivesse seus momentos de prazer também. Lembrou-se do filósofo grego Epicuro.
─ Hoje à tarde, refletiu, serei mais um hedonista, porém.
Além do peixe, mandou goela abaixo duas garrafas inteiras de vinho branco e três doses de conhaque. Comeu do peixe e depois bebeu até anoitecer, sentado na sua poltrona de vime recoberta por couro tratado e acolchoado macio.
Viver é sofrer, disse para sim mesmo, logo no início da noite dialogando com o cérebro discreto e totalmente embriagado. Para o sofrimento, filosofia, bebida e uma soneca!
Adelaide tirou os sapatos dele nos primeiros roncos. Ela cuidava muito bem daquele homem de coração bom. Permitiu ao padre entrar noite a dentro com a mesma cara de homem bom que o acompanha nos seus momentos mais duros, que são partes constantes de sua vida. Bebidas e mulheres eram seus pecados. E vivia ainda para Deus. Adormeceu e amanheceu seu punhado de horas naquela poltrona.
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