- Pode entrar, meu filho. A casa é sua.
- Obrigado.
Eu olhei para o Cotonete e nada. Nada de nada. Nada de arrogância. Nada de prepotência. Nada ser valente, destemido, abusado, ousado. Eu conhecia a minha mãe. Nem brinquei. Olhava procurando os olhos do Cotonete que estavam no chão. Pensei que a pobreza realmente intimida o rico da mesma forma que a riqueza intimida o pobre. Ontem me senti fora do meu espaço no duplex. Hoje é o dia dele. Ele entrou com uma muleta só. Dona Cláudia consentiu que somente ele dormiria no meu barraco com a condição de ela levá-lo até lá e conhecer a minha mãe. Alguns palavrões saíram de sua boca. Eu concordei na hora com a dona Cláudia. Ele mentaltamente para mim: "filho da puta". Nosso nível de comunicação já estava mental. A mãe do Cotonete parou o carro em frente à favela. Ela tinha um Ford Ranger verde escuro 1995. Impecável. Talvez maior e mais espaçoso do que meu barraco. Mais confortável, sem dúvida. Cruzamos a pontinha do córrego. Dona Cláudia tinha algo, ou ainda tem, muito positivo em sua vida de médica. Ela sempre foi uma profissional muito atenciosa. Talvez pela condição do Cotonete. Via nas outras crianças que chegavam ao hospital como futuros adultos sem hora marcada. Ela trabalhava em hospital público e no particular onde o doutor Carlos Sampaio, seu marido, era diretor geral. Tinham duas clínicas particulares também. Por duas vezes, incrivelmente, ela teve de parar para tomar dois cafés na favela antes do meu barraco.
- Mas doutora! A senhora por aqui?
Ela vestia branco. Saiu do hospital para nos pegar na escola. Nos trazer para cá. E voltar.
- Está fazendo visita em casa de doente?
- Não. Não.
O sorriso nítido de simpatia e, claro, medo e timidez. O esquisito, porém, foi que ao olhar para o Cotonete, que estava a alguns passos à frente ao meu lado, dona Cláudia se recompôs como uma mãe qualquer e disse bem sonoramente.
- Vim trazer meu filho na casa de um amigo...
Casimira, a mulher que a cumprimentou, olhou para mim com espanto. Nem liguei. O desconforto é a falta de hábito, de costume. Ainda assim, parou. E paramos. Chamou a Casimira dona Cláudia para conhecer seu barraco. Tomou café. Era passado da uma da tarde. O almoço feito. Ofereceu. Ela agradeceu e disse outra hora. Ficamos esperando na porta. As coisas dentro da favela são tudo com pouco espaço. Ou se está dentro ou se está fora. Não existe meio termo. Também se pode estar em cima ou embaixo. Geralmente quem mora lá está tumultuado, ou melhor, no meio da multidão. E assim fomos. Antes do meu barraco, mais outra pessoa reconheceu a doutora. Simpática. Disse o motivo. Tomou café. Agradeceu. Enfim, chegamos. Outra coisa interessante de dona Cláudia era a falta de brilho externo. Havia uma linda aliança em seu dedo esquerdo, com um pequeno diamante. Um discreto par de brincos. E só. Admito que em 1995 ela foi a primeira pessoa que vi com um celular. Era médica. Tinha pager e bip também. Reflito comigo por que ela? Por que ela teve um filho com hora marcada sendo sempre uma pessoa tão boa, tão dedicada, tão humana, tão solidária e solícita para o próximo? A conclusão a que eu chego é que dona Cláudia teve o melhor filho que uma mãe pode ter. Nossa hora é questão de tempo. Cotonete era o cara! Aquele cara que deixava a realidade bater em seu peito e ele a dominava. Eu admirava demais.
- Pode sentar, meu filho. Qual é seu nome?
- Luiz Gabriel.
Eu não teria coragem de falar para a minha mãe que eu o chamava Cotonete.
- Senta, Luiz Gabriel. Já comeu pé de galinha cozido?
Eu olhei para ele. O filho da puta quase disse que sim. Viu que seria mal negócio.
- Não. Nunca comi.
Para quem nunca comeu, ele levou para barriga uns cinco pés de galinha com arroz e feijão. Minha mãe era a mulher do tempero. Chupou todos os ossinhos. Deixou-os na beira do prato. Disse depois que o almoço foi o melhor da vida dele. O caldo do pé de galinha cozido em cima do arroz fez o Cotonete lamber o prato. Ele me viu lamber o prato. Meus irmãos também. Deve ter achado normal. Meu pai dormia ainda. Havia chegado do trabalho por volta das nove. Minha mãe come pouco. E lentamente. Mastigava como estivesse refletindo a vida. Ou, para uma imagem melhor, seria como escrevesse um romance, do mesmo modo como eu o faço agora. Aliás, por sugestão do doutor Carlos Sampaio, o pai do Cotonete.
- Babão, vamos andar na favela?
- O nome dele é Carlos, Luiz Gabriel. Nada de apelido aqui em casa. E aqui não é favela. São casas onde moram pessoas que buscam um espaço melhor.
- Desculpe-me, e abaixou a cabeça.
Minha mãe tinha destas. Silenciosa. Cuidava dos três filhos. Mas consciente que fazia inveja a qualquer sociólogo. Finalmente, pela primeira vez, alguém domou este espírito indomável do Cotonete. Desculpar-se para alguém tendo hora marcada ou é medo - e eu tenho certeza de que não é medo - ou respeito, mas ele não é bem o sujeito que respeita. Entendi então que ele saiu do seu ego e entrou do ego da minha mãe. Naquele momento, inteligente que é, Cotonete deu por si que a vontade da mulher que acabou de servir o almoço, mãe de seu amigo, dona do barraco, educada e gentil deveria prevalecer.
- Vamos andar na favela, Luiz Gabriel, ironizei desta vez.
- Cudado com os mal-elementos, gritou a minha mãe quando já uns dez passos do barraco.
- Sua mãe é legal, Babão.
- A sua também é, Cotonete.
Ele andava letamente. Acho que mais do que o normal com a desculpa da muleta. Ele já era perneta. Ficou mais. Eu acho que ele desejava sentir a certeza de cada barraco e seu metro quadrado apertado. Os rostos pardos. Alguns pretos e nordestinos.
- Não tem branco neste porra, Babão?
- No seu duplex, de preto eu e a dona Fátima.
- O porteiro noturno e os seguranças. A coisa é realmente foda.
Nossos papos eram mais ou menos assim. Se um vinha com uma observação, o outro ou xingava ou amadurecia a reflexão. Quem me dera se hoje, aos 34 anos, eu pudesse entender que minha própria inteligência superava a média da percepção das pessoas ao meu redor, fossem elas ricas ou pobres? A verdade era que eu tinha um problema de burrice que me escravizava na quinta série dentro do meu cérebro. Deste problema falarei mais para frente. Cada qual com o seu. O meu problema era na cabeça; o do Cotonete nos ossos. Para ilustrar um pouco, o meu problema era no software e o dele no hardware. Ele se foderia antes na hora marcada, e eu me foderia a minha infância toda e nesta adolescência até o doutor Carlos Sampaio descobrir.
- Vamos subir aquele escadão? - pediu o Cotonete.
- Vamos.
Desta vez foi diferente. Era a cada degrau uma tortura. Moleque tinhoso, destemido, cheio de si, os passos não acompanhavam os degraus de terra. E era íngrime. Eu empurrava pelas costas e às vezes passava a mão na bunda dele.
- Vai tomar no cu, Babão! Caralho!
E parei de zuar. Ele poderia cair. Foi tempo até chegar ao topo. De lá dava para ver a porra da torre do prédio no Anália Franco. O prédio onde ele morava. No fundo, no fundo, tudl aquilo era a mesma São Paulo. Alturas não tão semelhantes. Do alto, porém, irradiava a certeza de que havia vida lá embaixo. Foi a mesma sensação que eu tive quando vi um vídeo que mostrava o planeta Terra em rotação. Será que o universo compreende que há vida neste ponto? Eu era burro para prestar atenção. Quando entendia, me afundava em reflexões que reviravam minha alma e minhas certezas ao avesso. E gosto daquela canção para marcar minha cidade "do avesso do avesso do avesso do avesso do avesso". Por causa de Sampa, eu fui conhecer o cruzamento da Av. Ipiranga com a São João. E foi no mesmo dia em que o Cotonete quis virar homem com uma prostituta. Mais para frente narro como foi.
- Babão, fico mais feliz vendo São Paulo aqui do alto do que da varanda da minha casa.
- O alto da sua casa dá medo, Cotonete.
- Não é isto, caralho. Lá é comprado. Um homem toma a decisão e faz o prédio para ganhar dinheiro. Compra quem pode. Você pode. Você compra. Você entra. Sobe. E vê. Aqui praticamente minha primeira escalada.
- Agora, você pegou pesado falando que gostou do pé de galinha cozido.
- Gostei pra cacete. Vou pedir para dona Fátima fazer em casa. E você vai comer pé de galinha em casa.
Ficamos no alto do morro, em cima da favela, por horas. E não faltou assunto. A consciência do estado "terminal" dele veio há dois anos, em 1993. Tinha nove anos. O defeito na perna sempre existiu. Esta condição com hora marcada também. A mãe, em lágrimas, narrou para ele, que sempre foi muito certinho, cauteloso, bom aluno, exemplo na escola particular. Ele me contou detalhes que vou poupar as pessoas para não gerar aquela angústia existencial do caralho.
- E seu pai?
- Ele nunca me tratou como filho. Nunca me pegou na escola. Nunca me levou para o médico. Nunca fez porra nenhuma para mim.
- E o que foi aquilo ontem, Cotonete?
- Desde que eu resolvi mudar para uma escola pública, ele se revelou filho da puta também. É me ver e me encher o saco, daquele mesmo jeitinho. Um cusão do caralho.
- Fala assim de seu pai não.
- Vai se foder, caralho. Aquilo é pai? Seu pai está dormindo depois de trabalhar a noite toda. Deve acordar e sorrir para seus filhos. O meu acorda. Vai ao banheiro. Volta alterado igual louco. E me xinga até eu sair de casa.
- Cacete.
- Babão, crise zero para mim. O bom de ter hora marcada é que todos neste mundo tem. E que se foda. Eu aproveito meus dias. Ele quer perder o tempo dele me agredindo. Eu nem ligo. Aprendi a me bastar e me realizar neste mundo do cacete.
- Se não fosse eu, você já teria mudado de escola no primeiro mês, Cotonete. Iria apanhar todo dia do jeito que você é folgado.
Fiquei esperando uma resposta e nada. Ele me deixou falando. Todo este papo foi sentado na terra. Do alto. Ele com o gesso. Eu pernas esticadas. Às vezes deitávamos. Quando comecei a tomar picada de pernilongos era o momento de descer.
- Vamos descer, Cotonete. Já está ficando escuro.
- Cara, vamos dormir aqui.
- Minha mãe me mata se não for para casa.
Ele nem pensou. Pediu ajuda para se levantar. Algo que eu não sabia era que o silêncio dele era uma dor abdominal insuportável do lado esquerdo. Da barriga para as costas. Quando se levantou reclamou da dor. Nem dei por mim.
- Vai na frente, Babão. Eu me apoio em você.
Lá em baixo, uns vinte metros, a favela começa a clarear com os seus gatos. Luzes amarelas, pequenas, de barraco em barraco. Do alto dava para ouvir panelas de pressão. Dezenas. E o falatório geral. Não tinha pancadão em 1995.
- Segura aí.
No primeiro lance do degrau, tranquilo. No segundo, o Cotonete colocou muita pressão no meu ombro. Eu iria xingar para ele parar de zueira. Quando olho para trás, sem chance. Ele já estava com os olhos fechados e em dez segundos rolou na escada de terra como pedra. Eu gritava igual louco. O moleque indo, batendo costas, pernas, cabeça. A muleta - era uma apenas - ficou largada lá em cima. Meus gritos trouxeram a favela toda para o escadão. Cotonete desacordado. Pedi ajuda e logo pegaram ele. Ele era levinho. Foi o seu João, um negro forte, dobro do meu tamanho. Carregou o moleque no colo. Eu fui atrás. Nem passei no meu barraco. So cruzei. A favela toda comentando, curiosa, querendo ver, saber, entender, discutir, polemizar. Entramos na Brasília velha do seu João. Cotonete desacordado. Ela pegou no tranco, empurrada pelo Pedro Ferro Velho.
- Seu João. Acelera.
- Calma, moleque. O Iva está pertinho.
Iva é o nome popular do Hospital Benedito Montenegro. Como fica no Jardim Iva, todo mundo chama de Iva mesmo.
- Minha mãe é voluntária lá, disse o seu João.
Eu chorei no caminho todo. Assim que ele virou a primeira esquina, eu perguntei.
- Está longe, seu João?
A Brasília velha dele não andava mais do que 40km/h. A sensação de que não saía do lugar. O Pedro Ferro Velho foi junto na frente. Era magro. Mas para mim ele fazia peso e o carro não andava. No banco de trás, Cotonete com a cabeça no meu colo, todo estourado, mas eu via que respirava. Eu colocava a mão na barriga dele. Via mexendo. E em momento algum tirei.
- Falta muito, seu João?
- Um quilômetro. Acho que nem isso
Fica próximo a Barreira Grande
É perto de uma escola. Calma. Já estamos chegando.
E demorou horas para mim o que levou minutos. A maca veio. Num primeiro momento sem muita pressa. Meu desespero acelerou o processo. Eu gritei que ela o filho da doutora Cláudia. Ele é filho de médico e de médica. Ajuda o menino. Salva o menino. Antecipo que meu desespero foi em vão. Em um hora, Cotonete estava bem. Falando. Xingando até o médico que o atendeu e que conhecia a sua mãe. E falando em mãe, eu fui com o seu João e o Pedro Ferro Velho dar a notícia do filho. Nunca. Nunca me senti tão culpado e com vontade de não existir. Seu João e o Pedro Ferro Velho ficaram na Brasília na frente do prédio. Toquei o interfone. A dona Cláudia atendeu com aparente calma. Me disse que já sabia. Ligaram para ela. E que na verdade foi mais um susto e um braço quebrado. Ela brincou com a situação. Agora, além de perneta é maneta. Me disse para ficar tranquilo que estava já indo para o hospital. Pediu para eu esperar e irmos juntos. Falei para o seu João. Muito gente boa ele. Agradeci. Ele ofereceu sempre ajuda. Quando foi embora, sentei no meio fio, sujo, mulato, e comecei a chorar demais.
- Ei, moleque, era um carro de polícia, que faz aí? - perguntou o PM.
- Nada não, senhor.
- Vai. Levanta, então. Pode circular. Vai. Circula.
Nem argumentei. Obedeci. Eles ficaram me olhando sem parar. Eu fui indo para longe do prédio sentido Sapopemba. Dona Cláudia não saía com o carro. Quando dei por mim já estava longe. As luzes do carro da polícia por algum motivo me seguraram as lágrimas. Tive de voltar a ser homem. Fui a pé. Até o hospital. E lá já estava dona Cláudia. De longe a vi. Depois fui a pé para casa. Cheguei umas nove horas da noite. Talvez mais tarde. Foi a segunda vez na vida que cheguei tão tarde na favela. A primeira foi justamente ontem, quw fiquei até tarde na casa do Cotonete. Minha mãe já sabia do moleque no hospital. Meu pai já no trabalho. Eu, olhos vermelhos de lágrimas e cansaço e preocupação, nada sabia o dizer a minha mãe. E para terminar a noite, quem aparece na porta minutos depois foi a dona Cláudia. Entrou pela segunda vez na vida em uma favela num único dia. Ela disse para a minha mãe que Cotonete estava bem, quero dizer, disse Luiz Gabriel. Um braço quebrado. E pediu um favor.
- O Carlos pode dormir em casa hoje?
Minha mãe sempre sábia, olhou meus olhos.
- Claro. Pega a sua escova de dentes, Carlinhos. Uma roupa limpa. E não perde aula amanhã. Toma banho antes de dormir.
Saímos do meu barraco. Antes, porém, passamos no barraco do seu João. A mãe dele, que fazia trabalho voluntário no Ivo, 78 anos, reconheceu a doutora. Ela estava sentada na porta. Dormia tarde. Corpinho bem fininho, totalmente oposto ao seu João, de quase dois metros. Ela se surpreendeu com a médica chamando seu filho. Falou do coração bom dela ao seu João, que nada disse, literalmente. Somente ouviu respeitoso. Ao final, fomos para o duplex. Tomei meu banho. Nesta noite eu dormi na cama mais confortável que um ser humano pode ter. Imagine a sua alma sem o corpo para o aprisionar. Minha sensação naquela cama. Alma livre sem corpo para aprisionar. Boa imagem. Deve ser a sensação de uma cama boa e de uma alma presa. Antes, porém, fui um pouco ousado e perguntei do doutor Carlos Sampaio.
- Ele está no hospital. Não vai sair de lá enquanto o filho não tiver alta.
- Dona Cláudia. Posso fazer uma pergunta?
- Sim.
- Por que o pai é tão agressivo com o filho?
Ela olhou dentro dos meus olhos. Relutou. Depois, por fim, me disse a verdade que estava por trás daquela aparência toda. Concluí que todos seres humanos somos máscaras. Máscaras múltiplas num grande carnaval que pode ser feliz ou não. Eu fui atrás da minha felicidade desde então.
Leitura dinâmica, prende a atenção, conteúdo interessante !!!
ResponderExcluirOs livros são uma ótima ferramenta para desenvolver a nossa mente !
Além de aumentar o nosso vocabulário e capacidade de interpretação,
O cotonete que vendia cartão telefônico na Ipiranga morreu?
ResponderExcluirO cotonete que vendia cartão telefônico na Ipiranga morreu?
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