domingo, 3 de maio de 2015

Adoção

Conversando com minha irmã, após deixar meus filhos na casa deles, tematizamos algo bem delicado a respeito de um caso que ela conheceu e bem comum a muitas pessoas: adoção de crianças.

Pensamos em adoção como alguém que está recebendo um filho gerado em outro corpo. E aí geralmente paramos de refletir no assunto. O que quase ninguém percebe é que a grande maioria das adoções não são frutos da fatalidade, como a criança ficar órfã pelo falecimento dos pais e ser entregue à adoção.

No nível mais profundo da adoção, e que não enxergamos, é que para uma mulher ter a experiência de ser mãe, sem ter dentro de si a capacidade biológica, ela precisa de algo impossível na mente dela: o desapego, a falta de amor, a entrega de uma criança, por uma outra mãe, que lá ficou ao longo de nove meses sentindo as consequências de seu corpo e ao final desfazer-se de seu filho. Para uma receber o que não é seu, mas que deseja ter, a outra dá o que é seu porque não o quer.

Isto é relativamente forte. Semelhantemente a um transplante de coração que para salvar alguém por mais alguns anos há a necessidade da fatalidade da morte de alguém saudável.

Não sei até que ponto tudo isto faz parte de somente falta de amor pela pessoa que gerou, com a vontade de amar o que não consegue gerar. Verdade, porém, que a vida tem das maiores ironias, e infinitas falsas conclusões. Não dá para concluir nada e nem para somente aceitar as ironias da vida. No fundo, à certa altura de nossas vidas, o futuro, mais do que tudo, é um desdobramento de nosso real presente. Sabemos como a vida é pela própria vida e não pela imaginação. Coisa de gente velha, passada dos quarenta anos.

Mas não sai da minha cabeça: para uma mulher ter a experiência da materidade e de amar um filho, foi necessária a renúncia e a falta de amor de uma outra mãe: somente a ironia compreende; somente os anos nos fazem aceitar.

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