Tenho tido quase diariamente sonhos catárticos. O desta noite foi justamente eu terminando o sonho com esta reflexão: sonhos catárticos. Ao acordar, anotei antes de esquecer: "escrever sobre sonhos catárticos". E, claro, falar sobre a palavra "catarse", que para mim é daquelas definições mais importantes ao ser humano.
Meus sonhos catárticos envolvem coisas bem pessoais. Daí podemos já ver parcialmente que catarse é algo pessoal. Só que catarse é algo pessoal do ponto de vista emocional. E mais do que isto. Pode ser do ponto de vista emocional extremamente profundo mesmo!
Falando em biologia, li há muito tempo que a cada três meses nossos corpos são renovados inteiramente. Um proceso simples de células morrendo e células nascendo. Há células, como os neurônios, que ficam conosco até a morte. A maioria se renova, porém. E assim vale para as unhas, os cabelos, o que comemos (entra e sai) e o que bebemos (entra e sai). Nosso corpo biológico é todo movimento num processo de "entra▶metaboliza▶sai". Isto no físico. E o nosso emocional? Pode entrar e ficar. (Isto é um perigo!) Justamente aí surge a catarse. Esta palavra chave.
Emocionar-se. Chorar. Refletir. A catarse faz dos seres humanos isto: emoção, choro, reflexão. Mas faz de um modo relativamente seguro. Podemos nos emocionar diante de uma cena real, em que testemunhamos a dor; podemos chorar desesperos verdadeiros diante da morte; podemos refletir sobre nossa realidade achando que nunca terá fim uma dor, um amor, uma desilusão, uma derrota. Viver a realidade não é, portanto, catarse. Viver a realidade são nossas próprias experiências emocionais, o que nos fazem o que somos e seremos.
Meus sonhos catárticos vem, portanto, com a finalidade de eu sentir, refletir, expelir, colocar para fora um sentimento, ou alguns sentimentos que não mais estão no meu cotidiano. Imagine que as lágrimas de um filme são catarse, que o envolvimento emocional de um livro, de uma peça, de uma música, tudo tem este efeito catártico de mexer em nosso emocional e tirar um pouco daquilo que nos incomoda. O Pe. Fábio de Melo tem muito deste poder com suas palavras intimistas: arrancar das pessoas o emocional que perturba.
Todo artista real tem este sonho consciente ou inconsciente: traduzir sentimentos e mostrar ao outro que emocionamente ele nunca esteve e nunca estará sozinho, e é possível colocar para fora de forma poética: "amor é um querer estar preso por vontade", exemplo de Camões.
Por fim, chorar é catarse. Nas lágrimas mais se percebe este movimento. Não nas lágrimas mentirosas, nem nas infantis. O choro catártico é a certeza de que nosso emocional vai muito bem, obrigado! Eu não me iludo com quem fala "eu não choro fácil": ou a pessoa reprime, ou é mesmo insensível, portanto, se não sente emoção, também não sabe dar emoção. Só manipula os sentimentos dos outros ao seu interesse e até prazer. Isto não é bacana. Por fim mesmo, a psicanálise define assim a catarse:
"É provocar em outra pessoa, de forma controlada, o despertar de emoções contidas e omitidas, que precisam ser despertas e expostas, para a liberação de bloqueios emocionais.", uma vez que
"Catarse é um conceito derivado da língua grega, kátharsis, significando “purificação”. Seu significado original se refere ao procedimento para purificar ou higienizar indivíduos ou objetos com algum tipo de impureza."
Bom dia!
Muito interessante e bastante complexo ao mesmo tempo. ..Primeiro havia entendido que esse conjunto de emoções que nos formam e que precisam ser purificadas; cabendo a nós a responsabilidade de optar ou não por nossas escolhas! Depois surge o fato de que podemos ser manipulados e por ultimo entendi que há um certo controle entre o eu e o outro......
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