Onde está aquele cansaço gostoso que nossos avós sentiam? Falo do cansaço do esforço merecido ainda que sem sucesso. O cansaço extenuado. Dos músculos e mentes exaustos em que o repouso vira um prêmio tão certo que a vida entra em suspensão e hiberna profundamente dentro das sandálias.
Este cansaço de fazer nada no início de noite porque o olhar não se vê mais cansado. Nem o olhar que olha para dentro si mesmo através de todas as imagens que durante o dia nos bombardearam em uma cidade feito São Paulo.
Será que me refiro ao cansaço da velhice? Ou será nossa contemporaneidade nestas sociedades em que vivemos visivelmente cansativas, sugando desesperadamente o dinheiro do trabalho que temos e que para termos o trabalho devemos consumir cada vez mais de um modo altamente cansativo e infindável, não nos sobrando tempo para aquele cansaço absoluto do eterno descanso do início da noite?
Talvez vivemos em tantas responsabilidades? Ou talvez em nosso tempo livre nós o gastamos cansativamente em explicar aos nossos mais próximos que não somos o problema de suas vidas?
As coisas cansam. A vida em si tem seus problemas. E isto naturalmente cansa. Se amamos e não somos amados, o outro é um problema nosso que não gostaríamos muitas vezes de ter. Isto cansa. Temos já tantas poucas coisas para sermos menos ainda amando!
O cansaço do descanso pertence a uma outra realidade passada? Viver em São Paulo e querer ser o que São Paulo exige de nós cansa em demasia? O refúgio das obrigações seria o descanso de nossos avós? Pés nas sandálias. Não sei se na velhice, ou porque eram outros os tempos, mas nossos avós descansavam.
Eu vou culpar nosso tempo cruel que nos cansa a todo momento e nos rouba o descanso do verdadeiro cansaço sem preocupação. A conclusão a que chego também é que a maldade nos cansa muito. Em todos os lados e cantos vemos e convivemos com pessoas maldosas. E quem faz o mal sente prazer. O prazer é um tipo de descanso. Nosso cansaço é o descanso delas. E isto cansa demais.
E nos vemos cercados de tantos cansaços nos restando primeito a fé, depois a paciência e por fim o tempo. O cansaço dos nossos avós talvez será um dia o nosso descanso: sandálias nos pés. Mesmo porque, somente os anos nos ensinam realmente a filtrar as consequências. Saber pelo que vale ou pelo que não vale à pena se cansar.
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