Somente os chatos se recusam. E eu me recuso a tantas. Sou muito chato. A recusa é a última essência que resiste na personalidade de uma pessoa, e quem tem personalidade é um chato de galocha (o que significa "galocha"?, è com "x" ou "ch"?)
Eu me recuso há anos a ler, ver, ouvir qualquer coisa relacionada a BBB; eu me recuso há anos a ler, ver, ouvir, conhecer qualquer coisa relacionada ao funk deprevado; eu me recuso há anos a ler, ver, ouvir, saber qualquer coisa relacionada a novelas. E me sinto um chato com estilo por tirar de minha vida estas coisas.
Meu bom gosto, porém, é péssimo. Um prato feito no restaurante do China na Av Brigadeiro que cheira a xixi, eu o como de boa, e assim o fiz um mês atrás porque a grana estava muito curta. Renunciei meu carro e percebi que tirar o carro de um homem é castrá-lo moral, psicológica e até sexualmente! Mesmo assim, franciscanamente, eu fiquei sem carro: nada a favor do carro, mas o homem é o que é em algumas coisas. Não reclamava. Aceitei. Não queria ser chato.
Ou seja, se sou chato com algumas coisas, sou irreconhecivelmente desencanado e easy-going para outras e até incrivelmente de péssimo bom gosto. Gosto do Shrek, o ogro chato e teimoso. Quero ainda minha Fiona. Mas tem que ser princesa!
Aprendi que há coisas boas para compartilhar. Vinho, cerveja, whisky e cachaça devem ser bebíveis; um bom gourmet no prato faz uma diferença enorme no estômago; perfumes criam memórias olfativas indeléveis e afrodisíacas; óperas e raps são as minhas trilhas sonoras preferidas de minhas vidas vulgar e intelectual; teatros e filmes não é questão de estilo: é extensão dos meus olhares no mundo. Ah, sobre ler e escrever nem vou comentar. Sou cafetão dos livros e do que eu escrevo. Um cafetão inverso: eu pago para fazer isto, mas quem manda sou eu!
Bom gosto é uma questão de chatice também. Mas meu bom gosto às vezes é pessimamente chato e incrivelmente péssimo.
P. S. Inspirado sobre os comentários de um amigo sobre a novela Paraisópolis da Globo.
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