"Antes de entrar em minha vida, tire as sandalhas dos seus pés porque eu sou um solo sagrado."
Longe de sermos perfeitos, eu vejo assim a vida das pessoas. Todas elas. Todos somos solos sagrados no sentido mais óbvio de ser: existimos! Nossa existência nos traz a auto-imagem de que vivemos em nós mesmos e somos algo para nós, sagrado ou não.
Verdade que há quem não suporte ter a si mesmo como sagrado em algum momento da vida e abandone este mundo com as próprias mãos. Quem fica, ao mesmo tempo, fica perplexo e com dúvidas angustiosas das razões existencias que levaram a pessoa a dar fim de si mesma.
Para mim, todos solos sãoi sagrados. Todos devemos entrar com os pés descalços e limpos e puros na vida de quem quer que seja. Não sabemos o tanto de amor que as pessoas estão precisando e nem o tanto de cuidado e atenção. Neste solo sagrado, talvez, ela não veja nada senão guerras e dores, e cada centímetro profanado pelos conflitos humanos.
Tive dezenas de experiências nos últimos meses em que as pessoas somente queriam um pouco de atenção para se sentirem erguidas para a vida e para o mundo. Uma atenção sincera. Depois, aos poucos, elas conseguiam caminhar com seus próprios pés e tinham uma pequena devoção sobre si mesmas.
Todos precisamos de um cuidado mínimo de alguém para que paremos de tremer o coração cheio de dúvidas e angústias e resgatar em nosso solo a sacralidade de nosso próprio corpo e o milagre de nossa própria existência.
Quando isto ocorre, descobrimos que não importa a idade para existirmos: há muita coisa possível para se fazer com nossas vidas, desde que (depois das incertezas) alguém nos indique que somos importantes ao recebermos um pouco de atenção e cuidado.
Quem não nos vê sagrado e macula nosso espaço:
A) Crê na sacralidade da riqueza, do dinheiro, do consumo. "Em SP, Deus é uma nota de 100" traduz muito bem onde está o coração da pessoa. Ela quer a matéria e não uma essência sagrada.
B) Ainda não tem a maturidade em seu coração e não enxerga o outro; não possui ainda estrutura psicológica madura porque empacou entre a infância e a adolescência e seu ego vê apenas sagrados sua vida e seu corpo.
C) No fundo está gritando, implorando, berrando, lacrimejando atenção, cuidado, amor e o mínimo de proteção para voltar a crer em si mesma. Ela precisa de amparo e não tem nada para dar. Nesta vida, somente compartilha algo aquele que sabe o que tem. É impossível exigir algo de alguém que não existe ainda nela.
Neste sentido, não dá para culpar ninguém de como entrar na vida das pessoas. Diariamente pessoas entram em nossas, saem ou ficam. É a vida.
O que dá para ser feito é ter paciência e aos poucos mudar nossas expectativas do outro sobre nós. Quem sempre nos trata com respeito, nos trata como solo sagrado; quem nos entra de qualquer jeito, é o que tem para nos dar.
Mudar as pessoas? Precisamos fazer como os gregos na antiguidade: lavar os pés delas com cuidado e amor, de todos que entrava em nossas casas. Isto era conhecido como a Lei da Hospitalidade. Assim, as pessoas podem aprender com nossos gestos e nosso acolhimento o amor que podem compartilhar.
Nem todos conseguem. Alguns nem querem porque neste mundo sempre foram pouco amados. Acham que machucar o outro, alivia muito a dor interna. Só que profanar nunca é bom.
Somos solos sagrados. Tiremos as sandálias ao entrar em qualquer um destes solos.
Alguém só entra na vida de outra se essa quiser e estiver aberta para isso. As vezes o 'qualquer ' tenha algo que a nosso ver pareça nada e acabamos desprezando pela nossa arrogância.
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