domingo, 10 de maio de 2015

Trecho de "Miguelito: Memórias"

O Hospital Universitário Getúlio Vargas fica bem em frente do Cemitério São João Batista em Manaus. Padre Miguel deu-se por isto quando o repórter insistia na pergunta do menino.

─ Onde estão os pais do menino?

Olhar para o cemitério desestruturou os alicerces emocionais de padre Miguel. E ainda seu inconsciente ressoava as palavras “amor”e “sacrifício”. A diferença entre amor e sacrifício, padre Miguel, é nenhuma! Aquilo era tão óbvio para sua vida e nunca reparou que nasceu para amar e tinha a maioria das respostas de porque se sacrificava tanto pelas pessoas, apesar de seu notória fraqueza pela sexo feminino. Mesmo assim, todas as mulheres que passaram por sua vida foram amadas. E, como princesas, eram a mulher do padre. Julgou toda dedicação e atenção ao sentimento de culpa que tinha em seu coração. Não. Agora padre Miguel via claramente que não se sentia culpado. Se sacrificaria de qualquer forma. Era sua essência em fazer o que tinha que ser feito. Ajudava as pessoas como padre, como pai, como homem porque amava, e a dor sentida pelo outro compartilhava com sua própria impotência de não fazer o outro sofrer. Não queria ver ninguém sofrendo. E agora Miguelito. Nunca havia testemunhado outra coisa do garoto senão travessuras com um sorriso no rosto. Atento às circunstâncias para o momento certo de aparecer. E ser a atenção. E conseguir manter-se vivo para o mundo. Miguelito não desperdiçava nunca uma oportunidade para deixar sua presença onde quer que estivesse. E se ele agia assim, por que não inspirar-se nele? Por que não agarrar as oportunidades que as relações humanas permitem e considerar o lado positivo que Miguelito tinha. O repórter insistia irritantemente:

─ Como o menino, caiu, senhor? Onde o senhor estava na hora? Cada vez mais pessoas conhecidas tanto da Mariana quanto da escola vinham para ter informações.

─ Miguelito morreu! Caiu do telhado da escola! Morreu agora à tarde. Curiosos. Pais de alunos. Professores. Os turnos da tarde e da noite foram dispensados.

Um comentário:

  1. Cada um com o seu propósito e a sua missão...Miguelito foi muito sábio e paciente ao tratar sem maltratar pois a curiosidade parece-nos incompreensível quando não aceitamos os fatos.;;;

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