quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Alma velha

Alma Velha, Vida Tardia

(vontade de mexer no interruptor do sim e do não que pulveriza algumas pessoas: inclusive a mim mesmo para elas!)

Ópera é um teatro cantado. Aprendi ópera depois de velho. Aliás, minha aprendizagem em geral foi depois de velho. Velho na alma aos 22 anos. Gosto muito dos Racionais quando ele falava: "Eu? Tenho uma alma velha, uma pistola automática e um sentimento de revolta. To tentando Sobreviver no Inferno." que inicia o segundo álbum deles, de 1997, sobre a periferia de SP. Somos da periferia. O próprio Edi Rock diz que  "não pode tirar de dentro dele a favela." E mais ainda, Mano Brown nos lembra "o ensinamento da favela foi muito bom pra mim". Não cresci em uma. Mas como estivesse. O limite de meu olhar aos 16 anos era jogar bola na praça, tomar tubaína e ler Notícias Populares na mesa de bilhar do Bar do Paulinho. E lia com dificuldade. Aos 21 anos, já na USP, alma velha, tudo sobre cultura veio mais tarde para mim e nunca precocemente: a ópera, música clássica, Shakespeare, filosofia, Machado de Assis, artes, a escrita e, por fim, falar em público, que virou minha maior conquista de tudo aquilo que nunca sonhei. Apaixonei-me pelo ser humano no olhar e faço questão de ele sentir o que eu sinto ao ouvir, ao fazer, ao ler algo sublime. Inclusive ao escrever uma inspiração. Quero compartilhar um trecho do libreto de uma ópera chamada "La Traviata". A Violeta canta sua entrega à morte, depois de ser forçada e convenciada pelo pai de Alfredo a abandonar seu amor, uma vez que ela era prostituta. Alfredo, o amor de sua vida, correspondia. Das partes finais desta ópera, que assim como a mim, talvez venha a muitos tardiamente. Tarde é tudo o que desistimos e jamais o que começamos. A letra da canção abaixo. Leia. Ouça. Emociona-se. Apaixona-se. E viva com alternativas.

La Traviata

Violette, ato 3.

- Eu duvido que você possa sonhar com tanto, meu amor.  Eu preciso purificar minha alma. Baixar minhas guardas. E cantar para você. Adeus, sonhos felizes de um tempo que se foi! A rosa da minha juventude desvaneceu e morreu! O amor de Alfredo enfraqueceu meu coração. Meu conforto, minha força - essas também não existem mais!  Conforto. Força. Conceda a esta perdida sua graça infinita. Oh, a ela conceda seu perdão, e a acolha. Oh, Deus!  Logo tudo, tudo vai passar!  Tudo. Tudo. Tudo irá acabar! A alegria, a dor, em pouco tempo acabarão. E uma tumba fria cobrirá  todas as coisas, no final! Nem lágrimas, nem flores enfeitarão minha solidão!  E nem cruz, nem nome estarão no local onde me enterrarão!  Nem cruz. Nem flores.   Conceda a esta perdida sua graça infinita. Oh, a ela conceda seu perdão, e a acolha. Oh, Deus! Logo tudo, tudo vai passar!  Tudo. Tudo. Tudo irá acabar.

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