terça-feira, 14 de novembro de 2017

Muitas coisas morrem

Muitas coisas morrem ao longo de nossas vidas. Porém, para algumas, o sentimento de amor curioso parece nunca morrer - quando muito hibernado, e desperto na menor faísca que o relembre. Tive meu grande amor na adolescência, que me fez perder os rumos do que poderia ser até meus vinte e três anos, e me fez fantasiar que mais nada haveria nesse mundo a não ser ela, a Elisângela, que me trazia uma dimensão espiritual que transcendeu os mais absurdos do sonhos surrealistas. Tudo fruto de minha própria imaginação. Claro que me iludia - muito próprio da adolescência para quem o ato de amar era único e eterno. Estava de fato apaixonado, ou seja, dependente e passivo. Perdia a razão na maioria das vezes, sem perder a dignidade. Incrivelmente foi uma pitada de sanidade que me salvou contra aquele monstro que criei. Uma jovem, que tem a minha idade hoje, que diz se apaixonou por mim quando tivemos algo aos dezessete anos, voltou hoje a falar comigo depois de mais de vinte anos. Não sei se o amor por mim morreu há muito tempo no coração dela, e essa volta faz parte da curiosidade humana. Creio que sim para ambos. Creio porém mais no amor, que está lá. Se a Elisângela aparecesse hoje, eu solteiro, ela solteira, seria no mínimo divertido retomar para mim aqueles tempos de paixão pueril e infinita e beijá-la. Em 2012 eu tive esse oportunidade. Eu não estava impedido, no entanto. Eu estava casado. Ela solteira. Conversamos muito até. Ela quis entender o que era aquele sentimento todo que eu nutria por ela na adolescência. Expliquei-lhe do modo mais racional e didático possível: era imaturo e inocente. Foi gostoso reviver tal momento. Mas a verdade era que pouco sobrou daquele amor que me ensinou a sofrer o outro. Muito pouco mesmo. Minhas emoções foram substituídas por outras bem mais fortes, infinitamente mais significativas, de modo que o eterno daquela paixão foi uma perspectiva, uma curva sinuosa, reticências do absoluto... Tenho vontade de olhar para algumas vidas apaixonadas hojs, que sofrem a dor da morte do amor não correspondido, e dizer que há mais de ilusão do que de amor nesse coração. Certamente receberia o troco da incompreensão por nunca haver amado como ela. Mas não farei. Sei que iludir a mente ajuda de alguma forma saber que somos vidas, somente vidas, breve vida.

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