Houve uma época em que eu escrevia tão mais livremente. Uma época recente na verdade. Relativamente recente. Eu poderia falar de tudo, ou melhor, compartilhar um pouco mais intensamente minhas impressões de sentimentos de natureza forte, tais como solidão, amor, angústia, dúvida, ansiedade, medo, ciúme, fraqueza e tantos outros. Porém, uma coisa é escrever pensando em como um ou outro sentimento invade a vida emocional da alma humana e lá habita com todas as consequências possíveis. Se amor, se solidão, se euforia ou medo. Agora, escrever com autolimitação parece algo burocrático. Se quero falar de amor, ou de solidão, ou de filosofia certamente surge de uma ou outra inspiração. Porém, não é para a inspiração que se escreve. Para isso se faz em cartas. Podemos pensar para nosso olhar interno, que existe, que sentimos, que precisa de um pouco de organização em forma de palavras. Ser compreensivo não é apenas concordar. Ser compreensivo plenamente é saber quais palavras traduzem a compreensão do que se sente, ou do sentimento que se sente. Como ninguém é o detentor da verdade aqui nesse mundo - a não ser nossas mães - cada pequeno texto lido, cada palavra ouvida, cada verdade sentida, nós expandimos nossa autocompreensão, e aí que entra um escritor. Quando se colocava pseudônimos nas crônicas em gazetas antigas, creio que a lógica era o texto e não o autor. Deve ter outras lógicas também. O nome é lido também. Paulo Coelho seria evidentemente lido com mais atenção do que cronistas anônimos da alma humana no mundo limitado das mídias sociais, como eu. Mesmo assim, gosto da diluição, ou seja, o texto, como açucar ou sal na água, se dilui aos olhos do leitor e lá adoça um pouco sua vida ou salga para dar algum gosto no insosso dos dias que passam e passam e passam. Inevitável confundir o autor com a autoria. Para mim a autoria é de quem lê. E mais importante na vida é a autoria do que ser autor. O autor de uma casa poder ser o arquiteto. Quem mora nela é a autoria. Quem faz um bom prato é o autor. Quem o come é a autoria. Sei que estou brincando com essas duas palavras que se confundem. Mas podemos ser autores de nossas vidas, porém a autoria é que faz nossas marcas pessoais terem sentido.
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