domingo, 26 de novembro de 2017

Perdi o interesse nos seres humanos

Um dia, quem luta muito, e crê no que faz, atingirá a realização do que busca. Então, não existirá mais o passado da luta para o mundo. Somente o presente da conquista, que equivale a outros problemas, e refiro-me a problemas no plano especificamente psicológico. É que vivemos em um mundo de interesse recíproco. Sabedor do mundo de interesse, eu me cansei das pessoas, de maneira geral, ou seja, eu perdi boa parte do meu interesse por elas. Refiro-me a tolerar o interesse delas. Eu amo ensinar e quero que aprendam. Eu adoro escrever e fico feliz quando me leem. Eu leio por prazer e obrigação, e leio de tudo. Enriqueço-me na conversa e adoro dialogar - ainda que as pessoas não me compreendam às vezes a ironia, o senso de humor azedo e as verdades pessoais e poéticas. Mas converso sobre tudo e muito sincero com o coração pronto para ser altruísta e solícito. Repare que a perda do meu interesse pelas pessoas tem mais a ver com o mundo de interesse que as pessoas vivem e a que pertencem. Não poucas vezes as pessoas têm interesse naquilo que podemos ser úteis, e eu até me conformo, e busco sempre ser útil a quem me procura para as mais pequenas coisas. Posso dizer, então, que ao perder o interesse pelas pessoas não significa que eu não as ame e não as ajude no possível. Simplesmente não as procuro com interesse. A bem da verdade, procuro as pessoas como uma curiosidade humana, de contato humano, para passar meu tempo humano e desdobrar a vida em coisas humanas. Nossa sociedade cada fez mais se reifica, e reificar-se significa "virar coisa". A reificação das nossas vidas se traduz nas coisas que podemos ter, proporcionar, compartilhar, sendo puramente coisas: desde aquilo que se come e como se locomove, ao o que se veste e onde se dorme. É normal e até justo o desejo pelas coisas. Mas é disso que falo. Essa perda de interesse gira em torno da reificação do espìrito das pessoas; seus espíritos viraram coisas. A mim, que sou também da filosofia, o que mais me resta? O prazer antigo de estudar e escrever, assim como ler assumiu o papel do prazer de ter o ser humano em contato comigo, sem ser puramente coisa. Existem muitos semelhantes a mim, espalhados por aí com o mesmo propósito, de ser algo espiritual, ou seja, mais humano e menos coisa. E olha que eu não sou alienado não em relação a trabalho e a dinheiro. Sei de sua importância. Além de uma pensão esse mês de 1400,00 (geralmente fica 900,00), eu ainda pude mandar à parte 1300,00 exclusivamente para meus filhos, sendo que a mãe deles, merecida e competentemente é profissionalmente abençoada com um salário digno à função que ela exerce - se mandei um pouco a mais é porque quero ajudá-los mais, já que dinheiro para mim é coisa. Para meus filhos tem mais importância nesse momento da vida deles. Não busco coisas. Não sou gastão com dinheiro - aliás vivo em parcimônia. Mas quero, dentro do meu possível, ver meus filhos bem nas necessidades das coisas que eles precisam. Antes, eu até fazia questão de pagar a cerveja, o jantar, o cinema etc. em um encontro. Hoje cansei-me. Até divido, e olhe lá. Vi que às pessoas não valem muitos mimos, porque estão muito coisificadas, tanto o pensamento delas quanto o que elas querem na vida delas. Prefiro mandar para meus filhos, já que são a maior parte espiritual de minha existência. Longe de ser pessimista minha reflexão! Estamos cercados de pessoas que olham o mundo e se enxergam no mundo, e não gastam energia que não seja focada diretamente no mundo cheio de coisas. Veem-me à mente tantos exemplos! Deixo só a reflexão, porém. Nada de exemplos, porque me cansa. Sei que escrevo para mim, ou para quem de alguma forma tem interesse em mim, seja de cunho afetivo ou espiritual - e são poucos. Uma hora a vida material ressurgirá e com ela aquele interesse nas coisas. E honestamente me comportarei da mesmo forma que tem me deixado feliz: um completo idiota! Recentemente eu estava conversando com um amigo e a namorada dele. Então ele me disse que iria chamar uma mina tal para sair com a gente etc. Eu sabia quem era. Eu disse a ele: "se fizer isso, vou ter que me comportar como idiota". Ele me perguntou por quê. Respondi que cansa ser envolvente, já que as pessoas estão bastante alienadas em "coisas". Um mínimo de envolvimento espiritual arrebata e explode temporariamente o mundo coisa dela, confundindo tudo. E eu concluí "o papo nosso está tão bom que preferiria manter assim". Gosto de falar o que penso, e falo bem; gosto de fazer rir, e rio facilmente; e assim roubamos o tempo da morte em bons tempos de vida. Meu amigo e a namorada dele entenderam, mas riram da minha cara. Mesmo assim, compreenderam. Ambos não tinham interesse algum em mim, a não ser o espiritual, a ideia, o diálogo. Eles simplesmente gostam de mim. Não desisti dos seres humanos. Somente perdi interesse nos humanos coisificados, e olha que eles são assustadoramente numerosos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário